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Paradoxo


Esta é uma obra de ficção com marcas e coisas com direitos reservados, mas vou usar mesmo assim porque isso é apenas literatura amadora.

O estilo textual é a mescla de uma cópia barata de vários outros.

Acontecimentos no enredo que se assemelhem aos de algum filme/série/jogo/whatever são mera referência são apenas levemente aproveitados para o bom desenvolvimento do texto.

Qualquer semelhança de personagens, pensamentos ou ações com a vida real é mera coincidência.

Os erros em relação a qualquer ponto em relação à física e a ciência em geral devem ser ignorados pois o escritor é meio burro.

PARADOXO

14/07/2013 : AFI

Os músculos enrijeciam-se à medida que Wander tentava segurar-se no corpo coberto de pelos da gigantesca criatura. Era como uma pequenina aranha escalando um humano forte e monstruoso. Mas armado com a Espada Anciã, um legado antigo de seu vilarejo que fora surrupiado por ele no intuito de chegar até Terras Proibidas, o jovem guerreiro tenta derrotar mais um receptáculo vivo de uma parte da alma de Dormin, que lhe prometera a vida de sua amada de volta.

Subir no Colosso não foi tarefa fácil; teve que atrair a atenção do Minotauro Gigante que, armado com uma faca feita por três gomos de largas pedras unidas umas às outras, golpeou uma calçada pedregosa, ligeiramente solta. A força descomunal levantou a plataforma, e Wander correu para usar a elevação como apoio para subir na parte superior de uma construção, no lado esquerdo do cenário. Ali parecia seguro, o teto estava coberto por pedras e tinha defesa contra os golpes da criatura, devido sobretudo à estrutura da construção, aparentemente projetada pelos antigos para abrigar arqueiros. Um baque estrondoso, que derrubara as pedras do teto, cortou seus pensamentos sobre o lugar; precisava concentrar-se em derrotar o Colosso. Era o décimo quinto oponente, dos dezesseis que era-se necessário eliminar para conseguir de volta a vida de Mono, que fora sacrificada em ritual à um deus não-neutro.

Pulou em uma das pedras que jaziam no chão da parte superior da construção, e então, depois de impulsionar-se com a força apropriada, saltou para escalar até o andar superior. A besta grotesca e gigante continuava seu caminho em linha reta, parecia não mais dar atenção ao guerreiro, que já tinha inúmeras cicatrizes geradas pelas batalhas com os outros quatorze seres da mesma natureza. Depois de atingir o andar mais elevado da construção, que ficava junto a parede, correu em direção à escada, a qual levava a uma ponte que poderia usar para chegar à uma construção semelhante, do outro lado do cenário. Assoviou, como sempre fazia para chamar Agro, sua égua, e assim atraiu novamente a atenção do Colosso, que, por sua vez, ergueu o braço no ar para dirigir um golpe na ponte, onde Wander agora não mais estava, pois sabia que se ficasse ali, acabaria morto.

Com um estrondo, a ponte quebrou-se. No entanto era feita de material resistente, e como resultado, a vibração causada pelo golpe na mão do gigante o fez largar o instrumento ao chão. Wander não perdeu tempo; a parte inicial do caminho da ponte não havia sido destruída, então usou como trampolim e, cinematograficamente, caiu com a Espada Anciã já enterrada na cabeça da fera. Ao retirar com dificuldade a espada de dentro da carne da criatura, que era dura como concreto em meio aos pelos pútridos, o característico jato de sangue jorrou do ponto fraco do monstruoso ser, sinalizado pelo selo de Dormin, que brilhava com uma luz branca pela presença da Espada Anciã.

Quando, depois do terceiro golpe, percebeu que não mais causava dano à criatura, saltou para os ombros do enorme oponente e desceu até a mão, que antes segurava o tacape pedregoso. Mais um ponto fraco. Enfiou a espada um par de vezes no selo e partiu em direção ao peito.

A besta mexia-se muito e os músculos enrijeciam-se à medida que Wander tentava segurar-se no corpo coberto de pelos da gigantesca criatura. Era como uma pequenina aranha escalando um humano forte e monstruoso.

Quando finalmente chegou ao peitoral do Colosso, reparou que os olhos da criatura tinham cores que se transformavam de um laranja claro até um tom mais intenso, como se milhares de almas estivessem sofrendo dentro daqueles globos oculares feitos de pedra. Nenhuma criatura era tão forte a ponto de ter mais de três selos, então reuniu a pouca energia restante em seu corpo para aplicar o golpe final. A espada trespassou a pele rija e Wander levou o que seria o último banho de sangue – literalmente – vindo daquela fera. O monstro de quinze metros foi perdendo as forças aos poucos e, enfim, tombou, estatelado no chão, sem vida.

Wander sempre temera o que acontecia depois que eliminava um colosso, parecia que entidades, almas, seres estranhos adentravam em seu corpo, então ele correu para evitar que alcançassem-no. Inutilmente. Perdeu a consciência como de costume e acordou no templo da luz, com Dormin sussurrando em seu ouvido, com sua voz hermafrodita vindo do além.

Salvou o jogo. Desligou o Playstation 2. Comeu uma torrada. Botou a mochila nas costas. Saiu de casa.

Como em toda a sexta-feira às três e meia da tarde, sai para vigiar Alice, garantindo que ela chegasse à aula de violão – uma das poucas atividades extracurriculares que não participava com ela – em segurança. Para não ser percebido, pega duas das lentes de seu telescópio barato para improvisar um binóculo; assim, tinha boa visão a uma distância segura. Possuía um caderno encapado com adesivos aleatórios que achara em sua casa entre os cadernos de sua irmã, onde anotava cada movimento peculiar que observava; desta vez, de um arbusto à cinquenta metros da janela, que dava visão, justamente, para o canto onde ela gostava de praticar o dedilhado no violão de doze cordas.

Raramente conseguia escutar o som que vinha da sala, pois era acusticamente isolada, além de sempre haver movimento intenso de automóveis na rua paralela, do outro lado da quadra. Enquanto esperava, dividia a atenção entre Alice e seu bom e velho Pokemon Fire Red, no lendário GameBoy. Com um timing perfeito, conseguiu a insígnia que almejava, justamente dois minutos antes da aula da jovem terminar.

Enquanto observava a moça caminhando até em casa, pensava em como era linda caminhando, em como era linda estressada, quando ria – o que era raro – e também em como tinha um corpo perfeitamente balanceado. O cabelo azul, que parecia muito natural mesmo sendo azul, era a cereja no bolo perfeito.

Casa. Banho “quente”. Kingdom Hearts 2. Janta. Cama.

15/07/2013 : AAA

Com a respiração pesada e com a armadura de aço já enferrujada, caminhava vagarosamente enquanto formava uma trilha de sangue no chão. Os soldados do exército inimigo trajavam roupas modernas e portavam armas de fogo; todos estavam com as mesmas apontadas para ele, que agora jazia ajoelhado perante uma grande poça de sangue, ao lado de dois companheiros, que já haviam sido abatidos. Dentre os soldados, um homem careca de meia idade, portando um rifle SV98 e vestindo um uniforme da marinha americana, dá um passo na sua direção. Com apenas um braço, ele aponta a arma para cabeça do guerreiro medieval, já desabilitado, e puxa o gatilho.

Acordou-se com um pulo, suando frio e com respiração rápida quando o despertador do celular, que selecionava aleatoriamente músicas do cartão de memória para esta função, tocou. A música, por coincidência, era uma canção nacional, que começava com tiros no início, para depois fazer referência a um estilo de vida. A banda era gaúcha.

Banho. Café. Mochila. Aula.

Ao observar seus companheiros de classe, um pensamento nasceu: como seria legal chutar meus colegas. Um chute bem centralizado na face de cada um, fazendo-os sangrar pelo nariz. Uma fila formar-se-ia nos banheiros, composta pelos feridos, que buscariam papel higiênico para estancar seus sangramentos. Haveria muita gente por lá, e, consequentemente, os casais começariam a se pegar, ele ficaria desconfortável e voltaria para a sala, repensando se realmente valera a pena fazer isso, visto que só perdeu aula e passou pela embaraçosa experiência de ver casais se pegando, enquanto ele mal encostava em uma garota desde que sem querer tropeçou e esbarrou os lábios nos lábios de Fernanda, que mudou de escola – provavelmente por causa do suposto assédio – em 2009. Por causa deste evento acidental, ficara com fama de pervertido durante muito tempo na escola, e até hoje alguns o chamam de “Esbarrão”.

– Adamastor, pode nos responder a questão número vinte, por favor?

Sim, ele chama-se Adamastor e sim, é um nome de cachorro; sempre perguntava-se: por que diabos colocaram esse nome? E a conclusão era: seu pai apenas pesquisara nomes aleatórios na internet discada dos anos noventa e acabara escolhendo o primeiro que viu.

– Claro, claro. Número vinte, deixe-me apenas checar minhas anotações, acho que me atrapalhei um pouco nessa.

Como de costume em correções de atividades em fila, André contou qual questão iria “cair” em cada aluno das quatro filas de cinco pessoas. Fez os vinte exercícios de álgebra em sete minutos - não foi seu tempo recorde -, e então passou mensagens para todos os alunos da classe com o resultado e a resolução das contas para os respectivos alunos que estariam encarregados de responder as referentes questões, quando a professora solicitasse. Se havia algum motivo para a turma, composta por vagabundos despreocupados, ser sempre elogiada pelos professores, este motivo era André. Adamastor já havia checado a mensagem antes, mas decidiu conferir novamente, fingindo estar procurando o rascunho da conta em seu fichário.

– Aqui, achei! Na verdade, é bem simples: se contarmos a quantidade de pessoas que receberam apenas um bombom, teremos um número que, somado ao total, pode ser dividido por quatro que é o número de crianças, então havia 40 pessoas no evento.

Com exceção da correção das atividades, e protocolos sociais na presença de algumas pessoas com quem Adamastor convive diariamente, sua única ação que pudesse ter chamado alguma atenção durante a manhã foi quase cair ao abrir a porta, depois de ter ido ao banheiro.

Fim do dia letivo.

Igual a qualquer outra quinta-feira, assim como o restante do dia. Dias assim eram felizes – embora ele não percebesse. A monotonia da rotina parecia-lhe desagradável, mas, na verdade, era uma dádiva concedida a poucos pelo acaso. No fim daquele que seria apenas mais um dia pacato da sua vida feliz e cheia de petróleo, algo inacreditável aconteceu.

O jovem Adamastor sempre esteve esperando uma ação ou alguma mudança brusca em sua vida; já que esta era como um carrinho de montanha russa: parado no ponto entre a subida e a descida, mas que, ao invés de descer, continuava ali.

Às oito da noite, depois da aula de inglês, sua mente estava configurada para pensar, no “modo adolescente”. Era assim que ele mesmo referia-se a seu estado mental quando estava pensando em Alice, seu amor platônico, uma colega de escola e de diversos cursos extracurriculares, os quais participava apenas para admirá-la. Ela deve me achar um esquisito; era o que ele pensava, supondo que ela soubesse que ele era um “stalker” um pouco maluco e que, quando ela vai para casa, ele a segue de longe para garantir que ela chegue bem em sua casa, que fica muito bem localizada e não é mais que um quilômetro longe de qualquer um dos seus compromissos.

Naquela ocasião não foi diferente, Adamastor acompanhava seu caminhar com um olhar protetor ao longe, como sempre faz depois do inglês. Seus cabelos, de um azul que lembrava as profundezas de um mar cristalino, brilhavam à luz da lua, o efeito ficava ainda mais fantástico quando ela saía de uma área iluminada apenas pela luz da lua e entrava em uma região banhada pela luz de um dos postes de madeira. A transição das partículas de luz hipnotizava-o, quando algo tirou-lhe daquele transe.

Era uma rua larga, e um grande terreno baldio com uma mata alta cobria a maior parte do lado esquerdo do caminho, de onde saiu, veloz, um vulto negro correndo em direção à Alice. Adamastor estremeceu, o tempo ao seu redor, por um momento, parou. O cérebro começou a trabalhar muito rápido, suas pupilas dilataram e naquele momento ele percebeu que este era o momento em que a montanha russa deveria descer. Assim que visualizou o vulto, que continuava indo na direção de Alice, a qual corria desesperada , horrorizada.

Seria não apenas um violador? Poderia ser algum conhecido ou “stalker” com métodos menos calmos, discretos e gentis que os de Adamastor? À medida que o ser aproximava-se dela, o horror em sua delicada face aumentava – o que deixava ela ainda mais sexy de uma forma inovadora.

O homem agarrou-a pelo braço e a levantou com uma mão; Adamastor ainda estava muito longe para fazer qualquer coisa. Algo refletiu entre as vestes negras do indivíduo misterioso. O reflexo lunar na lâmina prateada desnorteou o aspirante a herói e deu-lhe noção do perigo que estava enfrentando. Naquele momento, seu corpo ficou quente e ele achou que fosse desmaiar, como quando fica muito tempo exposto ao sol. Um misto de coragem e medo tomou conta do garoto quando tomou forças para investir de punho fechado contra o inimigo – que agora, a uma distância mais curta, poderia ser descrito como um homem magro de vestes negras e com um capuz vermelho sangue cobrindo-lhe a cabeça, sombreando seu rosto.

Em meio ao ímpeto selvagem na direção do inimigo, velha mochila de Adamastor rasgou-se com o movimento brusco do primeiro impulso; seu tijolo caiu da mesma juntamente com seus materiais escolares.

Levara um tijolo na mochila para a aula, pois a professora de inglês pesou os materiais, e ele conseguiu a informação de que ela faria isso de antemão, então não perdeu a chance de piada, já que sabia que o comentário “Você leva o que nesta mochila? Tijolos?” aconteceria.

Todos os itens caíram aos seus pés e fizeram-no perder o equilíbrio. Seus olhos já estavam cheios d’água pela falha que iria se suceder por causa disto: sua Afrodite pessoal iria estar banhada em sangue, ele entraria em depressão e provavelmente acabaria também em uma poça sangrenta se isto continuasse.

O asfalto estava gelado devido à baixa temperatura da noite serrana e seu tornozelo jazia, com certeza, quebrado junto ao mesmo asfalto que seria, em segundos, banhado com o sangue tanto de um quanto de outro. Neste momento, Adamastor já chorava soluçando enquanto o estranho despia a garota com a faca, sem ter muito cuidado com a sensível pele branca da menina, que soluçava e chorava com as lágrimas banhando os olhos verdes. Naquele desesperador momento o garoto já estava atordoado, chocado demais para continuar. Foi quando, pela primeira vez em meses, o olhar dele e dela se cruzaram, o dele transmitindo desculpas com a força de uma alma e os dela relatando o sofrimento e pedindo por ajuda.

De súbito, Adamastor sente a garganta quente e expele uma quantidade considerável de sangue pela boca. Na visão da garota, após o rapaz terminar a cusparada ritmada de sangue no chão, ela viu nos olhos do garoto não mais os olhos castanhos, mas uma íris de um azul claro, como uma chama celestial, sem pupila.

Flash de luz negra.

O rapaz havia desaparecido, deixando apenas o rastro de sangue, proveniente da ação prévia de se arrastar na direção do inimigo, seus materiais e toda a esperança da garota para trás.

O homem agora tinha a moça despida da cintura para cima, com cortes superficiais nos seios, assim como nas costelas; o homem teria diversão naquela noite, naquela rua deserta, naquele frio que iria embora junto com o calor do corpo da linda jovem após o estupro.

Estava terminando a ação de rasgar a calça jeans da menina quando, a um metro da ação, uma esfera do tamanho de uma bola de boliche, feita, aparentemente, apenas de escuridão, surge. O homem arremessou a moça no chão e, enquanto apontava uma arma de fogo, uma 44 Magnum na direção da vítima, se dirigia em direção à esfera; mantendo os olhos focados na mesma, sua pupila dilatando-se mais e mais, sentiu-se poderoso, pois estava conseguindo enxergar durante a noite tão bem quanto animais noturnos selvagens. Quando foi surpreendido por uma explosão de luminescência azul-esbranquiçada que cegou-o e arremessou-o cinco metros para a direção oposta da menina.

A garota percebeu seu uma vez ingênuo colega em sua frente, de costas para ela. O rapaz virou-se para a menina e, com os olhos ardendo em um azul celeste intenso, piscou para ela – como se fazia no tempo de seus pais – com confiança nunca antes vista por ela vindo dele. O rapaz então revirou os olhos incandescentes e cada partícula de seu corpo em um instante transformou-se, novamente, na esfera, e a explosão aconteceu do mesmo modo, mas agora para cima do agressor, o garoto havia, literalmente, se teletransportado. A garota naquele instante, se negava a aceitar, devia estar sonhando, tudo acontecia em uma velocidade descomunal, tão velozmente que sua coordenação não conseguia acompanhar.

O garoto caiu de uma altura de dois metros com a mão direita aberta, mirando a cabeça do agressor, que tentava se levantar. A mão do garoto empurrou, com velocidade, o crânio do malfeitor, que afundou no asfalto, fazendo uma rachadura no chão que foi banhada pelo sangue do oponente caído.

O brilho incomum desapareceu dos olhos do garoto. A menina observara o evento sobrenatural que ocorrera em questão de poucos segundos, e acarretou consequências sangrentas. Ele se lembrava de tudo, tinha consciência de tudo que acabara de realizar, sabia que o homem que golpeara não iria morrer por mais violento que fosse aquele golpe. A experiência que teve durante o salto espacial foi incrível e muito impressionante para se expressar em palavras. Mas agora, tudo que ele mais queria era levar Alice para casa.

Enquanto se aproximava da jovem, ela rastejava para trás, com medo dele. Adamastor envolveu-a com seu casaco para que não ficasse mais embaraçada por estar com os lindos seios à mostra para um provável psicopata sinistro que acabara de matar um homem. O rapaz abraçou a menina, como há muito tempo queria e depois acompanhou-a até sua casa.

Voltou correndo à rua do evento anterior, para resgatar seus itens e as roupas retalhadas de Alice. Apanhou tudo que estava ali, inclusive o tijolo. Assim que chegou em casa teve uma convulsão, impulsos nervosos sacudiam-no com espasmos involuntários e sangue escorria pelas narinas enquanto os olhos se reviravam.

Acordou no hospital regional.

20/07/2017 : UFO

– Uhn, chefe, posso parar de cuidar do telescópio ? Só para ir no banheiro ? Rapidão !

– Claro, claro. Vá. Mas não demore mais do que dois minutos, se não perde seu emprego, ouviu ?. E me traga um café.

–Argh, ok.

Samoth, esperou o subordinado deixar o recinto, e levou os olhos ao telescópio de última geração, que deveria estar sendo usado para pesquisa de um planeta longínquo e com grande quantidade de água e probabilidade de vida. Ao invés disto, estava sendo usado para observar um outro quadrante, que durante semanas não havia mostrado sequer sinais de modificação quanto aos aspectos bizarros descritos no mês anterior pelo patrão em relação aquelas coordenadas.

19/07/2013 : GUF

Adamastor não foi mantido no hospital no dia anterior, no qual tentou falar com Alice fazendo várias tentativas de aproximação, sempre frustradas por esquivas inteligentes por parte da retórica da garota. Mas hoje era um novo dia, e ele estava determinado a conversar sobre o que havia acontecido.

Acordou às cinco da manhã, como fazia toda sexta-feira para poder ter a visão das estrelas desaparecendo do céu pelo seu telescópio rudimentar e barato adquirido pela mãe em um sorteio. Observava a constelação de escorpião se esvair enquanto pensava em modos de abordar a menina. Depois de muito pensar, decidiu que improvisaria.

Chegou antes na escola, e ficou, disfarçadamente, observando os corredores à espera de sua amada colega. Quando avistou-a, muitos pensamentos e planos dinâmicos sobre como aborda-la metralharam sua mente quando de repente:

– A-Adamastor, certo ?

Estava pasmo, paralisado, em choque, atordoado. Era a primeira vez que sua Julieta dirigia-lhe a palavra, e sua voz era como o verão doce em meio aquele inverno rigoroso. Começou a desviar o olhar com vergonha, mas reuniu todas as motivações que poderia ter naquele momento para dirigir a palavra a ela olhando em seus olhos de um verde profundo, apaixonante, sensual e hipnotizante.

– Sim, olá ! – Falou com tamanha simplicidade e espontaneidade aparente, que a menina tirou a tensão dos ombros e já sentiu-se mais confortável.

– Então... Sobre ontem.... Muito obrigado.

Não notaram, mas o sinal para o início do primeiro período letivo já tinha sido tocado, e os corredores já estavam vazios.

–De nada, eu ach– Adamastor teve a fala interrompida por lábios suaves que tocaram os seus. Sentiu-se leve e quente por dentro, como se seu corpo fosse feito de um gás combustível que ficasse sempre na margem de seu ponto de combustão, flutuando. Era como um raio atingindo-o e atordoando-o.

A menina ergueu-se, esticando-se na ponta dos pés para dar fim ao que para ele foi o momento mais milagroso de sua vida. Então ela desculpou-se e saiu correndo para a sala. Nada mais precisava ser discutido sobre aquela noite. Ela não tinha criado repulsa por Adamastor pelos eventos de quinze de julho, não havia construído para ele uma imagem de insano ou demente mental; ela visualizou apenas o ser humano incrível que magicamente havia salvado ela de um malfeitor. Todos os esforços e sentimentos do rapaz tinham sido retribuídos através daquele ato, e tudo que precisava ser falado foi dito pelos lábios de Alice.

00/00/0000 : 000

– Ok garoto, sei que você está assustado, mas deixe-me explicar algumas coisas...

13/01/2037 : AWK

A barba estava longa, o corpo estava magro, a mente estava tranquila, e com o conhecimento de vinte anos de estudo em seu cérebro descansado. Teria hoje quarenta anos, não fosse a hibernação ativada quando tinha vinte e cinco, dois anos após os eventos de dois mil e vinte, que quase o levaram à loucura. Absorveu informação sobre a situação atual da humanidade, teve o equivalente a uma vida humana inteira para isto. Einstein dizia que o tempo era relativo, mas não só isto é desta maneira; também as memórias, os pensamentos, as relações sociais, espaço, matéria e gravidade também são.

Apertou o botão da câmara e estatelou-se no chão, sem energias. Duas pessoas em jalecos brancos que trajavam também máscaras semitransparentes esterilizadas – acessório não só básico, mas também essencial no trabalho de médicos, enfermeiros e qualquer pessoa que interaja com pacientes que tenham tido contato com a radiação Hak – o colocaram em uma velha maca já ultrapassada que usava magnetismo reverso para dar a impressão de que era movida por tecnologia antigravitacional verdadeira. Nos casos como o do paciente em questão, este tipo de maca é de grande utilidade, já que o manto magnético que envolve o objeto é denso e não deixa a radioatividade do organismo protegido se dissipar no ambiente, acumulando assim uma radiação concentrada que depois era armazenada em cilindros de tungstênio para a geração de energia da base.

Depois de alguma horas era como se nunca tivesse entrado aquele coma induzido, estava completamente regenerado e já comia um raro pernil de porco, requisitado por ele quinze anos atrás, alguns minutos antes da hibernação.

O processo foi como ele havia planejado, e agora, depois desta longa meditação, sabia o que deveria fazer em seguida. Perguntou por Samoth e as enfermeiras acompanharam-no até o mesmo. Samoth é um amigo precioso, e agora, as marcas do tempo cobriam-lhe a face, mas viu que o companheiro não perdera a jovialidade quando o cumprimentou:

– Minha bela adormecida enfim acordou. Porque demorou tanto seu maricas ?

– Bela adormecida ? Maricas ? Você não mudou nada mesmo.

Os parceiros abraçaram-se e quando o mesmo se desfez, caíram na gargalhada.

– Sem mais rodeios Samoth. Preciso usar aquilo, agora.

– Eu sei que tem consciência disso, mas, sabe que só pode usar aquilo uma vez não é mesmo ? Até porque é a única dose existente, e outras não serão mais fabricadas, pois o que você conseguiu fazer em dois mil e vinte foi algo muito singular. Nem o maior amante da teoria do caos iria considerar aquela possibilidade.

– Sim, sim. Agora me empreste um par de pistolas, um carro e venha comigo.

Ao sair pela porta do forte, fitou a paisagem desolada da planície que outrora fora salpicada com árvores exóticas no frio montanhoso, e sentiu o bafo radioativo que atualmente ocupava a atmosfera deslizando em sua face.

O caminho até o motel abandonado foi tranquilo, especialmente tendo a companhia de Samoth, que contava suas clássicas piadas sem graça, mas que acabavam sendo engraçadas de tão simplórias e descontraídas que eram. Chegaram, acharam alguns brinquedos sexuais pré-Hak, que não eram assim tão diferentes dos que eram usados atualmente. Samoth pegou o quarto 301, com banheira enorme com hidromassagem – isto se conseguissem fazer a parte elétrica funcionar – e uma cama de espuma, velha, porém macia e confortável. O “recém-acordado” ficou com o quarto 202, não iria dormir, passou os últimos quinze anos fazendo, de certa maneira, isto. Mas ali ficou, encarando a si mesmo na parede espelhada até amanhecer.

20/07/2013 : TGC

Adamastor não continuou fazendo tudo da maneira que fazia antes, agora, agia diferente, não por causa dos eventos bizarros envolvendo teletransporte, mas sim por causa do “evento do corredor” é assim que chamava este divisor de águas de sua vida quando estava em profunda meditação no sanitário, no banho ou no telescópio. Sua vida agora era dividida em: “Adamastor antes do evento do corredor, e, Adamastor depois do evento do corredor”. Até comeu saladas naquela semana; duas vezes.

O boato sobre o beijo se espalhou, pois, aparentemente, André estava tirando fotocópias do gabarito da próxima prova de química para a turma na esquina do corredor e acabou vendo tudo. Sentia-se envergonhado quando acabava escutando comentários sobre ele – mencionado geralmente como esquisitão – com Alice, mas era uma vergonha que trazia uma satisfação descomunal. Ela, entretanto, voltou a agir como agia antes, como se o garoto não existisse. Como se ninguém além de si mesma existisse, o que o deixava paranoico e entristecido.

Durante a tarde, para ocupar a cabeça, decidiu que não perseguiria Alice hoje .– mesmo que ainda tivesse medo de que ela pudesse, de alguma forma, não estar segura – Pegou um ônibus para a cidade vizinha e, ao chegar na lan house que costumava frequentar – Usual Spot – um cara, de mais ou menos vinte anos explicava calorosamente as regras de um jogo de cartas para várias pessoas que pareciam tão esquisitas quanto ele. Interessou-se no jogo e achou complexamente interessante.

– Então se você deixar sua carta de terreno desvirada, você pode usa-la para ativar uma mágica instantânea no turno do oponente, entendeu ?

Depois de algumas horas tinha aprendido completamente as regras e o estilo de jogo daquele trading card game, que na verdade era mais fácil do que imaginava. O processo de aprendizagem se sucedeu de forma que Adamastor perguntava sobre qualquer detalhe mínimo que pudesse causar dúvida em sua mente sobre o jogo. No fim da oficina, Samoth – o professor, que tinha a aparência magricela e trajava uma camiseta da ATARI – e Adamastor eram praticamente amigos; parecia que já se conheciam há muito tempo.

Comprou algumas centenas de cartas, já que tinha bom dinheiro guardado e montou seu deck, de mana azul e branca. O caminho de volta para a sua cidadezinha passou como um flash, pois estava extremamente entretido com as novas cartas e o grande rol de estratégias que poderiam ser escolhidas para aquele Grimório.

Antes de ir para casa, guardou as novas cartas na mochila – agora costurada pela mãe depois do “acidente” da segunda-feira – e foi na direção do curso de latim. Adamastor, antes de ingressar nas aulas, não tinha interesse algum por latim, mas depois que começou a aprender, viu que na pronúncia das palavras havia algo de místico. Mas, é claro, estava ali principalmente pois desta maneira poderia ficar mais tempo no mesmo ambiente que Alice, que com seus últimos atos deixou bem claro que sua Freya de cabelos cor de safira queria alguma coisa; entretanto a possibilidade de estar sendo apenas iludido era muito grande, então não levantou muito suas expectativas sobre isto.

21/07/2013 : SET

Até hoje não sabia o nome de todos os seus colegas; apenas de André, de Alice e de Rupert, um garoto com disfunção labial, mas que resolvia cubos mágicos em segundos. Daria até um filme daqueles que o protagonista é meio babaca, mas superinteligente apesar de não demonstrar.

Naquele dia decidiu interagir socialmente com cada colega seu. Como não tinha muito em comum com quase ninguém falou de música – algo que as pessoas em geral podem ter um gosto específico, então se demonstrasse conhecimento genérico sobre todos os gostos, teria assunto. Quando citaram Samoth pela primeira vez ficou surpreso. Como uma pessoa que ensinava regras de trading card games para gente da laia de Adamastor poderia ser conhecido por Rodrigo ? Um esportista nato, de corpo atlético e muito popular entre as garotas. Achou as primeiras três menções do conhecido agradáveis, mas depois percebeu que Samoth era realmente muito popular; não existia pessoa naquela maldita escola que não o conhecesse, o que abaixou o conceito do sujeito com Adamastor, que repudiava pessoas muito populares.

Estava sendo hipócrita no fim, socializando para, mesmo que como uma consequência involuntária, se tornar mais popular.

Era um dia daqueles que o pensamento se perdia facilmente em qualquer assunto, voltou para casa vagarosamente, pensando e olhando para o céu. Sua linha de pensamento sobre milk-shakes foi cortada quando decidiu checar se havia algo em sua agenda – com tantos cursos e aulas extracurriculares, ele tinha que se organizar de alguma maneira. Abriu no dia 22 de julho, havia um desenho; uma esfera espinhenta com um sorriso, desenhada com caneta azul. Não anotava com palavras o que precisava fazer, simplesmente fazia um desenho que remetia aos seus compromissos. Os desenhos além de ajudar neste aspecto, sempre traziam algum tipo de autoconsolo emocional embutido. No caso da esfera, além de ter sete pontas estrategicamente desenhadas para estarem como se fossem ponteiros fixos de um relógio, marcando a hora de cada atividade, também dizia para agir como um porco-espinho emocionalmente e tomar muito cuidado com Alice, que poderia apenas estar fazendo o que estava fazendo porque ficou muito impressionada pelo que viu no dia quinze, e não porque realmente se sentia atraída ou porque gostava dele.

14/01/2037 : THQ

Esperou o amigo acordar, e então partiram novamente, cortando o deserto com um carro conversível. O que era muito mais do que ilógico, era suicida. Além dos ventos radioativos estarem em contato direto com os passageiros, o povo do deserto – mercenários que atiravam com rifles de longa distância de forma precisa para pegar qualquer coisa que pudessem vender para o Rei Das Areias como era chamado, o que também não tinha lógica pois naquela planície não havia areia alguma, mas sim dunas de entulhos e pedras pré-Hak que já eram castigadas pela erosão – poderiam facilmente acabar aquela viagem com uma bala de metal dentro de seus cérebros.

Esteve dormindo no segundo plano por tanto tempo, que acabou esquecendo-se da situação em que o planeta e seus habitantes se encontravam. Ali, naquele conversível, o choque de realidade aconteceu. Ele, em lágrimas tomou consciência de que estava em um mundo que estava em ruínas, que pessoas buscavam a sobrevivência de qualquer maneira naquele inferno radioativo.

Explicou para o camarada que fariam a longa viagem em duas partes; uma para pegar a dose – doses são pequenos recipientes cilíndricos usados como cargas para armas de plasma, ou para dar energia ao custo de consumo do plasma que estiver dentro da mesma, estes receptáculos, entretanto, podem ser abastecidos com outros líquidos, como água – de CGF, e uma para desenterrar seu artefato.

O carro estava funcionando não mais pelo seu combustível normal, mas sim por doses que os parceiros gastavam com o propósito de manter o carro andando; o problema era que quanto mais eles gastassem as doses, menos munição para o canhão pesado eles teriam – armamento muito necessário na região, no caso de ataques de “besouros blindados” utilizados pelo povo do deserto para saquear até mesmo a mais fortificada das casas móveis.

Quando o cenário deixava de ser esverdeado e começava a tomar um tom avermelhado, pararam o carro e o cobriram com um grande manto de camuflagem, – adotado em estratégias gerais de qualquer grupo de sobrevivência organizado – pegaram as armas, algumas até mesmo pré-Hak’s e partiram em direção à única fonte de magnetismo atual do planeta, o vulcão Magnega.

Chegar até ali demorou apenas dois dias pois a base onde dormia não poderia ser construída mais longe daquele ponto, uma vez que experiências interplanares psíquicas não podem ser realizadas sem o magnetismo específico do planeta terra.

Estar próximo ao Magnega não significa que você terá sua mente vasculhada por Planewalkers , pois este tipo de pessoa não consegue fazer mais do que vagar pelo primeiro – ou se for experiente, segundo – plano observando o mundo em cores translúcidas enquanto o tempo passa na proporção desejada do meditante em questão.

Podiam carregar consigo itens metálicos, pois tinham a noção de como usar a mente para afastar ondas e cargas magnéticas específicas de suas armas, cintos e panelas. Entretanto, quanto mais se aproximassem do topo, mais difícil se tornaria este processo, devido ao nível da densidade magnética que seria atingida.

O vulcão é guardado por monges, que construíram ao redor do mesmo uma cidadela. Estes monges são apenas um exemplo dentre os seguidores das mais diversas e bizarras religiões que surgiram depois da segunda década de dois mil; Esta, no caso, venerava o magnetismo do vulcão como uma forma máxima de ação de deus no planeta, e defendiam Magnega de invasores mal-intencionados.

A dupla chegou na base do vulcão depois de algumas horas de caminhada depois do abandono do carro, e ali encontraram um monge-guarda de prontidão em um dos portões da muralha que fechava todo o meio de entrada em toda a circunferência da montanha. O guerreiro trajava roupas de tecido branco com detalhes em azul, leve, mas aparentemente resistente; portava também uma lança azul fosca com uma espécie de pequeno raio serpenteando na ponta.

– Esta área, como os senhores devem saber, é de proteção do monastério Hak, por favor mantenham-se afastados.

– Na verdade senhor, nós fazemos parte de uma expedição científica pela IMRS, e gostaríamos de adentrar o setor dois. – Articulou Samoth.

Depois de muita burocracia e uma perícia deveras afiada nos nossos cartões de identificações, – que eram de uma falsidade ainda mais afiada – adentramos a muralha.

Lá dentro, era “um paraíso steampunk” como ele mesmo definiria em seus longínquos tempos de ensino médio; esperava encontrar estabelecimentos esterilizados e paredes brancas, como as pedras da muralha eram, mas ao invés disso deparou-se com veias de vapor que corriam por dentro das paredes amareladas, que ao atingirem pilares de sustentação da construção ou a área de convergência da parede com o teto, era rebombado por pequenos pulsos de ar que entravam por bobinas com suas engrenagens enferrujadas à mostra.

Adentrando o corredor, e sentindo-se em uma sauna, observou que muitos monges dormiam no estado de meditação que estivera durante algum tempo, também em cápsulas criogênicas como aquelas. O processo interplanar ali deveria ser muito fácil, por estar em um ponto onde as ondas magnéticas do vulcão estavam próximas o suficiente para ter uma experiência saudável, mas não tanto a ponto da densidade magnética afetar o procedimento de forma negativa.

O papel de Samoth nesta etapa da campanha estava cumprida; ele deveria ajudar o amigo a adentrar a fortaleza monástica, depois disso, deveria sair e esperar pelo amigo no carro, e assim o fez. Os monges foram hospitaleiros e ofereceram ao integrante que ficou na fortaleza um quarto, que tinha não apenas o ambiente quente, como também havia um interruptor para ativar o vapor gelado, que normalizaria a temperatura ali. Deitou-se, sentiu-se confortável e dormiu.

12/09/2013 : FIT

Adamastor acordou antes de todos os outros, sentou-se na cadeira de madeira e olhou o relógio rústico na parede da casa de Alice; meio dia. Primeiramente aproveitou aquele momento de paz, observando André dormindo, esparramado no sofá, Samoth encolhido em seu saco de dormir azul recheado de cobertas, e Alice recostada no sofá, no mundo dos sonhos. Como tudo na vida, acordar antes dos amigos na casa de um deles é sempre um pouco desconfortável, pois nunca se sabe o que exatamente se deve fazer. Acordar eles ? Deixa-los dormindo e bisbilhotar a cozinha a procura de comida ? Não fez nada disso, apenas aproveitou a situação para contemplar os três amigos dormindo, em segurança, absortos quanto a qualquer acontecimento ao redor.

Esticou o braço para ligar o rádio, um costume que não tinha certeza de quando adquiriu, talvez depois dos sonhos esquisitos, não sabia ao certo. O programa da rádio sintonizada por Adamastor tocava sempre clássicos dos anos oitenta ao meio dia. Quando ligou o aparelho, o refrão de “Roll The Bones” era reproduzido: We come into the world and take our chances,Fate is just the weight of circumstances. That’s the way that Lady Luck dances, roll the bones.

A relação dos quarto amigos no último mês havia se tornado muito saudável. Com exceção de Samoth, os outros três jamais imaginavam que algum dia formariam um grupo de amigos com laços tão fortes em tão pouco tempo, já que se consideravam excluídos, e se autodepreciavam sempre que podiam, pois pensavam ser a verdade sobre si mesmos.

What's the deal? Spin the wheel. If the dice are hot, take a shot. Play your cards, show us what you got, what you're holding. If the cards are cold, don't go folding. Lady Luck is golden; She favors the bold. That's cold.

Já o relacionamento de Adamastor com Alice era enrolado; gostavam um do outro, e não raro a tensão amorosa pairava no ar – geralmente impulsionada por André e Samoth, que “empurravam” o casal um para o outro – mas por falta de coragem ou de circunstâncias favoráveis, a relação ficava deste jeito, indo da amizade ao romance superficial, mas nunca passando disto. A noite fora agradável, para ele especificamente pois os dois amigos – propositalmente – sentaram-se em poltronas, deixando o sofá de dois lugares para o “casal”. Apesar da vergonha de ambos na primeira hora de filme; depois de um certo tempo, já estavam abraçados confortavelmente assistindo o restante do filme.

Stop throwing stones, the night has a thousand saxophones. So get out there and rock, and roll the bones. Get busy!

O radio estava funcionando em um volume que não incomodasse quem estava dormindo, apenas Adamastor havia escutado a última música. Quando “Free Bird” começa a tocar como a última música do programa da rádio, o garoto aumenta o volume, já havia aproveitado o precioso momento de admirar suas pessoas queridas em segurança, em sono profundo. O início da música combinara cinematograficamente com a imagem dos amigos espreguiçando-se e bocejando.

Os pais de Alice estavam viajando à negócios em algum lugar da Europa, isso ele sabia, mas não queria usar suas habilidades de perseguidor para descobrir onde nem fazer perguntas desse tipo, pois achava que de alguma forma seria embaraçoso. O grupo de amigos então acordou e ajudou a limpar a casa da anfitriã, havia sujeira de pizza, latas de refrigerantes, pratos sujos e pacotes de bolacha vazios por todos os lados, resultado de dois dias de descanso merecidos depois de uma semana de provas. A medida que a longa música se tornava mais intensa, até atingir o solo, os companheiros também pareciam ter o vigor aumentado pela mesma.

Samoth saiu antes de todos evitando grande parte da tarefa, pois teria que trabalhar na Usual Spot durante a tarde. Depois daquela maratona, Adamastor voltou para casa sentindo-se completo, com um bom humor inabalável que surgiu, principalmente devido aos momentos preciosos que vivenciara nos últimos dois dias.

A noite estava quente, e o céu limpo pontilhado por centenas de estrelas. Vivia em uma cidade pequena, no interior então a poluição da atmosfera não se fazia presente para dificultar a observação das mesmas. Pegou o telescópio, anotou algumas coordenadas interessantes na caderneta e então mirou o mesmo à lua, que naquela noite brilhava em um tom amarelado que acalmava. Depois de observar a o satélite durante quinze minutos, estirou-se na grama para observar o céu da sua perspectiva, sem lentes ou coordenadas meditando sobre sua insignificância perante a imensidão universal e acabou pegando no sono.

No aparente sonho, observava seu corpo esticado na grama, sob a luz do luar. Movia-se como um fantasma, adentrando sua casa e pairando pelos ares. Resolveu testar-se; flutuou até a casa do vizinho para bisbilhotar. Adentrou a casa e parou na frente do velho Omar em sua cadeira de balanço, olhando televisão. Ficou parado na frente do aparelho, o velho não conseguia ter visão dele. Olhou no relógio de pulso do senhor, oito horas e vinte minutos. O ponteiro dos segundos movia-se lentamente. Sentiu vontade de ler um dos livros de Omar que estava esquecido no topo de uma prateleira velha de madeira escura. Tentou pegar o livro para iniciar a leitura, mas suas mãos apenas trespassaram o objeto, tal como os fantasmas o faziam em filmes. Sempre que visitava o senhor com sua mãe, Adamastor fitava tal livro, sempre jogado naquela prateleira mórbida, a vontade de sentir a textura e ler aquele livro em específico era enorme. Analisou novamente o nome do livro: A Arte da Guerra, e então, de súbito, toda a vontade acumulada desde que vislumbrou o livro pela primeira vez pareceu atuar sobre seu corpo translúcido, dando-lhe uma sensação semelhante a um “frio na barriga” e foi neste momento que um pequeno fio energético de cor azulada serpenteou pelo ar até chegar no centro de sua testa, e então toda a informação contida no livro fora transferida para sua mente.

Depois de ter absorvido instantaneamente as informações contidas no livro, das filosóficas até os principais estratagemas e principais formações bélicas para tipos variados de confrontos, seu corpo espectral começou a ser puxado por uma espécie de vento. Resistiu, de início, mas ao ver que esforços eram inúteis deixou a energia guia-lo. Seu próprio corpo o atraía de volta, então por um momento perdeu a consciência. Foi acordado pela mãe, que dizia que o acordava com um suco de laranja em mãos.

Sentou-se pegou o suco e agradeceu a mãe. Quando o vidro do copo encostou em seus lábios, uma forte dor de cabeça vingou, e sangue começou a escorrer por suas narinas. Imediatamente recolheu o telescópio entrou em seu quarto e deitou-se para descansar. Considerou que tal como o dia em que salvara Alice, aquilo poderia não ser um sonho, e mesmo que fosse, seu raciocínio, guiado principalmente por filmes de ficção científica, lhe dizia que mesmo que tivesse adquirido, de alguma forma, as informações do livro em sonho, a resposta de seu corpo seria negativa, devido à quantidade de informações assimiladas pelo cérebro muito rapidamente.

Ou talvez estivesse enlouquecendo, não sabia ao certo.

15/01/2037 : JDI

Adamastor passou a manhã procurando salas no segundo bloco, na esperança de encontrar a dose de CGF, sem sucesso. Entretanto durante o turno da tarde, teve grande progresso por parar, aquietar a mente e o campo magnético ao seu redor e analisar as ondas provenientes de cada sala que passasse. Curiosamente, ao final do décimo corredor do setor dois, quando sentou-se de frente para mais uma das muitas portas lacradas daquele setor, percebeu que a mesma não emanava vibração magnética alguma, fato que era ao menos peculiar.

Sentou-se e passou sua consciência para o primeiro plano. O primeiro plano é a camada mais superficial dentre as infinitas camadas da consciência coletiva humana propagada através do magnetismo. A maioria das pessoas, mesmo as que não focam suas vidas na manutenção e aprimoramento de suas próprias mentes, consegue acessar este plano. Diferente do processo de transporte físico através dos planos – os quais requerem que a mente esteja ao menos na vigésima camada planar – que faz a mente, de uma camada superior “espremer” as camadas inferiores causando a manipulação atômica de forma magnética, o processo pelo qual Adamastor passava era trivial, tal como prender a respiração.

As primeiras camadas planares tem algumas limitações. O ser que estiver no primeiro nível não pode ver pessoas que também estejam no primeiro nível, a consciência é transportada em forma de corpo, normalmente o corpo do usuário, pois já está com suas configurações motoras mais primárias do cérebro funcionando de maneira que a única forma que o corpo do mesmo pode ter é aquela. Alguns estudiosos dizem que a fisionomia humana é como um molde que dá forma permanente ao corpo e a consciência em outros planos. Também é impossível tocar objetos, entretanto, tendo uma mente treinada a “memória metafísica” do objeto pode ser absorvida pelo usuário sem maiores problemas neste plano.

Muitos cientistas, estudiosos e monges tentam compreender porque estas limitações acontecem, mas nenhuma suposição é totalmente correta pois cada humano tem um consciente diferenciado, tendo pontos de vista diferentes, e logo, os seus planos se tornam parte de suas imaginações particulares.

Adamastor começou este processo pela vantagem de poder trespassar as paredes dos corredores, mas como a sala suspeita não radiava ondas que pudessem lhe dar passagem, voltou ao plano material – seu corpo – para pensar claramente sobre o que faria a seguir. A única opção seria o transporte físico para dentro da sala, entretanto este processo requer grande quantidade de esforço de seu organismo e provavelmente acabaria não conseguindo voltar devido a fadiga causada por simular magnetismo estando no vigésimo plano e utilizando todas as dimensões (planos) inferiores para tal feito.

Ponderou por horas mas nenhum plano além de convencer um monge a mostrar o que havia dentro da sala surgiu em sua mente; e foi exatamente o que fez. Para sua surpresa, convenceu facilmente um dos monges que trajavam vestes rubras – os quais eram, aparentemente de uma ordem mais avançada dentro do sistema da grande base/monastério e portanto, tinham mais autoridade. A interação de Adamastor com o homem careca de profundos olhos negros e bigode grisalho foi na verdade sucinta, rápida e, por incrível que pareça, semuma troca de palavras sequer. Bastou o olhar de Adamastor encontrar o do velho monge – que antes de 2020 nunca teria tal título – que ele se botou a caminhar em direção a misteriosa sala.

Apenas agora notou que não vira um ser humano sequer desde que acordara, e o primeiro homem com o qual se depara é justamente o homem com o qual precisava falar. Chegando em frente à porta lacrada que tinha um formato de engrenagem, o homem sacou dois objetos encobertos por um pano rubro e cruzou os dois em frente a porta.A porta então se abriu, deslocando-se para frente, como uma engrenagem sendo destacada da espessa parede e então rolou para o lado. De dentro da sala um canhão de luz negra piscou e naquele instante pode-se ler na porta que ainda rolava para o lado pela força dos vapores que atuavam freneticamente nas bobinas e engrenagens: 101.

No momento em que deu o primeiro passo dentro da sala, vislumbrou Samoth ao lado de um pedestal em um ponto mais elevado na sala, que parecia maior por dentro do que por fora. Incontáveis monges e sacerdotes formavam uma meia lua logo atrás de seu companheiro que segurava além de um objeto de forma retangular, uma maleta.

– Você realmente esperava que eu fosse esperar comportadinho no carro ? Peguei as dicas superficiais que deixou comigo e foi atrás disso, achando que era grande coisa. Podia ter me dito logo que o objeto era algo tão simples de se encontrar.

– Então você...

– Exato. Como você acha que entrou aqui tão facilmente ? Isso já estava programado há muito tempo, fiz-lhe este favor enquanto tirava sua soneca prolongada.

O sacerdote que acompanhava-o entregou-lhe os itens, tanto seus como os de Samoth ainda cobertos pelos tecidos. Adamastor entretanto sabia quais eram. A dose de Capacitação Geral de Fluxo estava sob uma almofada arroxeada no pedestal. Tinha a forma de uma bala de revólver pré-Hak, media aproximadamente oito centímetros, era entretanto leve como uma pena e de cor azulada. Retirou o pano que envolvia um dos objetos que o sacerdote carregava revelando assim a poderosa .44 magnum – arma muito usada antes da catástrofe Hak. Liberou o tambor – que encontrava-se vazio – e carregou-o com a dose. Era a primeira dose dentre todas que já vislumbrara que tinha uma forma tão diminuta. A bala entrou perfeitamente pela cavidade e assim sua passagem para o passado estava há um disparo de distância.

Trajou as vestes rubro-negras que lhe foram concedidas, colocou os demais itens na maleta e olhou para seu amigo uma última vez antes de iniciar sua campanha. O drama foi interrompido pelo mesmo:

– Recapitulando. Esta é a única dose existente, faça isto direito, você tem um dia lá, se estiver em estado físico deplorável a dose que estará agindo em seu organismo e campo magnético pessoal irá te trazer de volta para cá. Suas habilidades estarão elevadas à níveis absurdos e conseguirá compartilhar parte disso com a consciência alvo. Entretanto lembre-se de que o ano é dois mil e treze, praticamente nenhum humano tem capacidade planar alguma então caso você opte por fazer o compartilhamento, faça-o com cuidado, o organismo das pessoas naquela época não está acostumado com tais interações psíquicas.

– Eu sei, eu sei. Mas me diga, quanto tempo você ensaiou para discursar tão bem sem nem mesmo parar para respirar ou engolir saliva ?

– Alguns anos, nada demais. Boa sorte se você precisar, amigo.

– Espero que eu não precise.

Apontou a arma em direção à sua cabeça, encostando o cano gelado pouco acima de sua orelha direita. Sabia que não iria morrer se atirasse, mas a simbologia implícita no ato era, no mínimo, irônica. Puxou o gatilho.

Cambaleou para um lado e para o outro, ainda estava ali com Samoth e os monges tão perto do vulcão Magnega quanto poderia estar. Sua visão, entretanto, embaçava-se e todos pareciam vultos ondulados. Teve uma sensação de queda e então fechou os olhos.

14/07/2013 : SOS

Abriu os olhos. Estava estatelado na grama ao nascer do sol. Sentia frio, então fechou as vestes que estavam ali justamente com o propósito de aquecê-lo. Reconhecia o lugar, a cerca, quase oculta por trepadeiras e as rosas que entre elas nasciam, o cheiro daquele local, e os fundos da rústica casa em geral.

Riu quando percebeu que não carregava consigo um relógio. Após todos aqueles anos de preparação para a viagem espaço-temporal, havia esquecido de trazer consigo um mísero relógio. Espiou pela janela dos fundos o relógio analógico pendurado acima do fogão na cozinha, eram cinco e meia da manhã.

Tirou os sapatos, pegou a maleta e, usando um grampo velho e um prego que estavam escondidos embaixo de um vaso de violetas, destrancou a porta dos fundos e adentrou na casa. Com passos leves e silenciosos, foi até a lavanderia e pegou o casaco que estava pendurado em um varal improvisado com um arame. A porta do quarto do filho mais velho estava aberta, estendeu o casaco na parte superior da mesma adentrou no cômodo mais dois passos e silenciosamente abriu a maleta.

Puxou com um movimento rápido o tecido que envolvia o tijolo, marcado com um desenho malfeito de um fantasma – para Adamastor, desenhar fantasmas em alguns objetos significava que iria fazer uso dos mesmos de alguma forma mais tarde e que deveria lembrar-se do motivo disto; era semelhante ao modo que pensava quando desenhava em sua agenda – e colocou sorrateiramente ao lado do rádio relógio do garoto.

Depois de se esgueirar até a cozinha para pegar uma faca afiada, agarrou a já desgastada mochila do jovem e aumentou os rasgos já existentes com a mesma. Mais uma olhada no relógio: 5:55 am, tinha que se apressar, em cinco minutos a família toda estaria acordada.

Estava no intuito de seguir pelo corredor de volta até a porta dos fundos quando um rangido na madeira é escutado. A irmã caçula caminhava sonolenta até o banheiro, tinha cabelos loiro-claros, agora desgrenhados e vestia um moletom preto do irmão. O invasor então espera a menina passar, se escondendo nas sombras, com muito medo da possível descoberta de sua presença. Ele fecha a maleta e depois que a garota fecha a porta do banheiro, ele consegue atingir a saída.

Já longe na rua, com o frio da manhã cortando-lhe o tato, depois de sair da casa às 5:58 conseguiu escutar a menina reclamando: – Mãe ! O mano deixou a porta dos fundos aberta de novo, quero metade da mesada dele por ter descoberto !

Caminhou quinze minutos até chegar no centro da cidade que já se enchia de vida naquele horário. Parou em uma padaria e, como costumava fazer antes de toda a confusão com a raça humana, pediu um mocaccino e croissants de presunto e queijo.

Até às 19:00 Adamastor viveu a ilusão de um dia inteiro e tranquilo antes de 2020. Caminhou por toda a cidade, escutou involuntariamente os pensamentos fúteis, superficiais e alienados das pessoas que cruzavam as ruas. Todas fazendo de seus pequenos desconfortos sociais grandes problemas emocionais, planejando mentiras, desejando a felicidade de alguns e a desgraça de outros. A consciência coletiva era tão plástica a ponto de gerar náuseas. Mas nem tudo era ruim nesta época. As pessoas vivenciavam um apogeu tecnológico, com comunicação instantânea e mundial, gadgets dos mais variados davam conforto à vida cotidiana desses seres que tinham acesso à uma vastidão de conhecimento de forma ágil e prática.

Música era escutada em todos os cantos, galerias capitalistas usavam de famosas pinturas para atrair a atenção, e de muitas outras maneiras a presença da criatividade artística humana podia ser observada. Pensar sobre o lado bom da sociedade não era bom, tudo isso se esvaneceria em poucos anos e não há nada que possa ser feito sobre isto, e o pouco que podia ser feito para ao menos garantir a sobrevivência da humanidade, estaria sendo feito, dentro de uma hora.

Analisando os arredores do caminho que seria seguido pelo alvo depois de sua aula de inglês, que já rumava ao término, as memórias em sua mente eram claras como o sol da manhã gelada em que havia chegado a esta era.

Oito da noite. O viajante temporal espreitava a jovial menina de cabelos azuis que caminhava iluminada pelos postes de luz naquela noite fria. Sacou a faca dentre os tecidos e deixou a maleta para trás quando correu velozmente na direção da garota.

Não gostava do que estava prestes a fazer, mas o curso das ações que se sucederiam eram necessárias para que a mente do Adamastor de mais de vinte anos atrás fosse emocionalmente abalada, as importantes informações lhe pudessem ser passadas e o processo interplanar fosse realizado com sucesso. Se o garoto tivesse pegado o casaco de manhã, e se lembrado de colocar o tijolo na mochila, a mais importante operação já realizada por um ser humano em prol da humanidade correria sem problemas.

Agarrou a menina com força pelo braço e levantou-a do chão. A garota parecia querer gritar e espernear, mas faltava-lhe o ar para agir desta forma, tamanho era seu terror quando vislumbrou o vulto prateado da lâmina saindo debaixo da manga do agressor. Enquanto o encapuzado segura a jovem, suspira de alívio quando vê o garoto caindo desengonçado alguns metros à frente por ter tropeçado no tijolo que gerara peso extra na mochila causando ruptura total do tecido fazendo com que os materiais e o objeto de construção civil se esparramassem ao chão.

A lâmina era afiada, mas fez apenas cortes superficiais na vítima, sem atingir órgãos internos, mas ainda sim pintando uma cena violenta enquanto as vestes da garota caíam esfarrapadas ao chão. Quando visualizou o olhar do garoto se erguendo depois da queda, soube que era a hora. Passou sua consciência aos níveis mais densos acima de dezenas de camadas planares e assim começou a chamada “experiência compartilhada”.

00/00/0000 : 000

– Ok garoto, sei que você está assustado, mas deixe-me explicar algumas coisas...

O menino soluçava em meio à lágrimas e não conseguia esconder a expressão confusa em sua face.

– O-onde eu estou ? Quem é você ? O que fez com alice!? Responda ! – Berrou o jovem que tentava inutilmente bater no estranho encapuzado.

Percebendo o desespero do garoto, o viajante planar então tirou o capuz e olhou nos olhos do menino. A expressão antes confusa do garoto aos poucos foi se acalmando, e ficando mais séria a medida que compreendia, através do olhar, que a pessoa que estava à sua frente era na verdade ele mesmo. As feições eram as mesmas, o corpo entretanto era maior e mais desgastado, um cavanhaque mal aparado era visto na face do homem que o encarava com olhar paternal.

– O quê ? Como isto é possível ?

– Terá bastante tempo para entender. Mas agora há várias coisas importantes que eu preciso te explicar, então afaste estes pensamentos syfy de como escapar de uma situação dessas, porque eles só irão te trazer mais dor te cabeça, ok ?

– Mas eu, eu não entendo. Devo estar em coma ou algo assim. É impossível que algo assim esteja acontecendo.

– Neste momento, você está falando com o homem que está agredindo Alice, e também com você mesmo. E não me venha com “eu nunca machucaria Alice desse jeito” pois você acabou fazendo isso porque o objetivo no final disto tudo é bem maior. Agora, meu corpo físico está segurando Alice e o seu desapareceu. Todos os átomos do seu corpo estão rearranjados nesta camada superior, e não temos muito tempo para conversar.

– Mas, mas ...

– Não vou tolerar mais interrupções ! Foi necessário este choque psicológico o seu desespero quando caiu no chão para que tivéssemos esta conversa, entenderá tudo isto na medida que você for crescendo. No momento presente, o tempo está passando mais lentamente para nós, mas trinta segundos no plano físico podem decidir o que eu farei com sua amada. Você terá seu corpo movido no espaço, e neste momento, precisarei observar um determinado fenômeno que irá acontecer. Nada do que está acontecendo está sendo conduzido por você agora, mas sim por você daqui há mais de vinte anos. Estou usando as minhas habilidades para mover-te. E uma vez que você voltar para lá, faça uso da imagem violenta que presenciou para me ferir mortalmente. Não se preocupe, isto é o meu passaporte de volta para o futuro.

– Eu realmente vou te arrebentar pelo que está fazendo.

– Assim espero. Opa ! Acabou o tempo, até mais.

14/07/2013 : SOS

Uma esfera negra formou-se logo à frente, então guardou a lâmina e apontou a arma descarregada para a garota que jazia ao chão, ensanguentada. Analisou calmamente a esfera planar e procurou armazenar o máximo de informações possíveis sobre aquela anomalia no mais curto período de tempo possível. O objeto planar implodiu, arremessando-lhe alguns metros mais à frente, na direção oposta à da menina. Uma segunda tremulação dimensional tranquilizou o velho Adamastor, que sentia agora uma sensação de missão cumprida enquanto tinha seu crânio sendo amassado contra o asfalto frio. Perdeu a consciência e acordou ao lado de Samoth no que parecia ser uma enfermaria. Graças à dose de CGF seu corpo estava nas mesmas condições físicas de antes de usa-la, deveria ter perdido a consciência logo após voltar do passado e por isso agora deveria estar ali.

FIM DO PRIMEIRO ARCO, PARADOXO COMPLETADO.

SEGUNDO ARCO: DEFLAGRAÇÃO

05/10/2013 : FUU

E lá estava ele, voando pelo céu. Passava por entre as nuvens de chuva com os pensamentos bem longe dali. Luvas metálicas com detalhes em azul emanavam chamas amarelo alaranjadas dando propulsão para o garoto se manter em voo. Dentro de uma nuvem, foi atingido por uma descarga elétrica e caiu.

Adamastor acordou com um pulo. Não costumava cochilar durante as aulas, muito menos ter sonhos durante os mesmos, mas esteve tão ocupado com sua pesquisa no dia anterior que não conseguiu evitar. Pegou a garrafa com café gelado de sua mochila e afogou-se com o mesmo durante um daqueles inconvenientes silêncios que algumas vezes acontecem na sala de aula, foi metralhado por risadas de todos os cantos.

A maioria das pessoas que conhece está apenas ali, estudando, para passar no vestibular, já Adamastor tem passado os últimos dois meses em casa trabalhando numa hipótese que surgiu em sua cabeça depois de ter visto uma reportagem sobre humanos controlando o sistema motor de animais com a própria mente. Surgiu-lhe a ideia de que se o sistema motor de um animal pode ser controlado por um cérebro humano, talvez outras funções poderiam também ser indexadas a isto, dando ao “possessor” controle total do animal que, tecnicamente, pode também ser um outro humano.

Os testes no porão de sua casa acontecem com dois ratos brancos que, de acordo com o capitalismo regional para roedores, custam dez reais. Eletrodos em um, eletrodos em outro, um computador entre os dois, e é o suficiente para pelo menos monitorar suas ondas cerebrais. Como não há aulas de neurologia no ensino médio, a observação prática e o estudo teórico teve que ser adaptado para o amador, através da internet e antigas enciclopédias de seu pai.

Seus pensamentos estavam lá, mas seu corpo aqui, como acontecia com frequência. Concentrava-se em qualquer coisa e ali fazia seus pensamentos se perderem, focando uma caneta e transformando tudo que o rodeia em vultos e sons que parecem distantes. Poderia estar utilizando o tempo que agora era desperdiçado escutando a estridente voz da professora de espanhol bem melhor do que aquilo.