I - A maldição do nascimento
1. Prelúdio na floresta
Algo não estava certo com a criança. Eu já nem me referia mais à estranha palidez, à sua pele quase transparente, que nos deixava entrever o movimento de veias e artérias azuladas. Era mais do que isso. E mais do que os seus cabelos ralos, finos como pêlos de gato, que se desprendiam aos tufos ao mais sutil afago. Mais do que as unhas quebradiças, finas como uma segunda pele; mais que seus olhos cegos à intensa luz do meio-dia. Era mais que sua aparência delicada – quase fantasmagórica, acho –, que me preocupava.
Algo definitivamente não estava certo com a criança, mas. Apenas com a criança? Também comigo, claro. Como poderia eu ter feito um filho assim frágil, quase quebradiço? Seria mesmo meu filho?
- Idiota, turrão, caçador de fantasmas. Cale a boca e prepare o machado – pensei, novamente atraído pelos rastros inequívocos de meu adversário: lascas de ossos, pedaços de carne, baba cinzenta e sulcos afiados nas árvores. Adversário ou adversários. Provavelmente três. E haviam feito uma farta refeição há pouco, era boa hora de atacar.
Ao mesmo tempo, como não pensar? Niela era a dádiva maior, imerecido presente divino, princesa meiga e sedutora. Ah, como pôde ter me escolhido? Eu deveria ser grato a ela, eternamente, como no dia em que riu alto e disse “aceito, meu lorde”. E: “Aurus, eu te amo”, suas palavras e risos e lágrimas; e lágrimas e planos. Nossas famílias, o clérigo da vila, os amigos. Festa. Como era doce, minha Niela, minha mulher.
Melancólico, ainda assim não contive o sorriso naquela estranha hora, sozinho e faminto na floresta escura, a seis semanas de galope de casa, com as roupas esfarrapadas e malcheirosas, coberto de grossa terra úmida avermelhada que me disfarçasse o cheiro. Com a lâmina de meu machado bem afiada, o fio em ponto de corte. E com a lâmina em que meu coração se convertera mais pontiaguda do que nunca: faria tudo por eles, a família querida, mas, ao mesmo tempo, relutava em voltar para eles – os pés relutavam, os pensamentos, a própria alma atormentada. Tudo hesitava diante do grande mistério do nascimento do pequeno. Algo estava errado com a criança.
No fundo sabia ser essa a motivação dos meus feitos, que muitos na vila poderiam chamar – ou confundir de – heróicos. Como voltar para casa e encarar, sob os olhos e braços complacentes da mulher amada, o meu maior fracasso? O maior fracasso de um homem. Algo de muito errado, por todos os deuses. Não tinha vontade de retornar. Mas chorava de saudade de Niela e Amara, nossa pequena amazona. Enquanto isso, disfarçava. Distraía-me com o sangue rubro e grosso de bestas inomináveis.
2. Caçador
Sou Aurus Bonasti, caçador. De todas as coisas que poderia ser calhou-me perfeitamente esta, desde que era capaz de firmar-me sobre duas pernas e perseguir as presas do mundo infantil – minúsculas ou imaginárias. Sempre vivi na aldeia de Umbala, uma terra sem reino nem riqueza, perdida entre florestas e planícies, fundada pela desesperança dos que, como meu bisavô, fugiram da encosta do Grande Mar quando as ondas gigantes começaram, atiçadas pela fúria de deuses esquecidos.
Meu trabalho sempre foi trazer alimento para a família e trocar o excedente por vinho, roupas, móveis – o necessário para levar uma vida simples e boa. Desde os catorze anos sigo rastros de lobos, leões, macacos, cavalos e felinos selvagens – além de ursos pardos, minha especialidade. Seguindo pacientemente, armando emboscadas, armadilhas, artimanhas que garantissem meu sucesso.
Tive conquistas, não posso me queixar. A vida era boa em Umbala. Aos vinte e dois anos fui promovido a chefe dos caçadores. Organizava as expedições, determinava o tipo de presa a matar, acompanhava atentamente a proliferação ou escasseamento dos animais da vizinhança para garantir que as feras não atacassem nosso povo por falta de comida nem nos deixassem à míngua por falta de espécimes por caçar. Comandava os rituais para que o divino Animal-Mestre continuasse enviando os seus irmãos e filhos para o abate – pois assim é o código dos caçadores, que desde o tempo anterior à escrita agem com respeito e dignidade diante da cerimônia da caça, onde a vida se alimenta da vida. Trabalhava em contato próximo com nosso líder, Assan, e honrava a tradição dos antepassados ensinando aos mais jovens todos os segredos desta harmoniosa e delicada arte. Matar para sobreviver.
Niela riria agora, “caçador filosófico”, diria. Sim. Sinto falta dela. Estamos casados há... pelo arco de Uller, dez anos! Eu tinha dezenove quando comunicamos o óbvio: o namoro da adolescência, as trocas de flores e pequenos animais do bosque, roupas bordadas e frutos silvestres, daria em casamento. Que grande festa, que magnífica celebração. Apesar de nosso convívio próximo desde a juventude, meus pais minavam minhas esperanças: Niela era rica, filha de um comerciante que comprava artigos de luxo em cidades distantes e os revendia a bom lucro, arriscando-se em caravanas intermináveis. Era especializado em tecidos: seda, carmesim, fio élfico, couros de todos os tipos de animais. Também vendia jóias finas, perfumes, prataria para a mesa, vinho sopisado pelos gnomos de Iramesh – bebidas finas e caras, segundo contava.
De minha parte, nunca fui exatamente pobre – nem sequer havia pobreza, como depois conheci em grandes cidades, em minha aldeia natal. A arte da caça, embora já menos valorizada do que nos tempos de nossos antepassados, que ainda não conheciam o cultivo das plantas, nos garantia fartura à mesa e um mínimo conforto. Meus três irmãos todos se casaram facilmente, com boas pretendentes. Ainda assim, foi com surpresa que eu, caçula dos Bonasti, recebi o “sim” enfático de Niela, ecoado nas bocas de meu sogro, Falfar, e sua mulher. Anos mais tarde percebi o quanto Falfar admirava minhas habilidades como caçador – e via nelas novas oportunidades de lucro. Não foram poucas as vezes em que me recrutou para dar mais segurança às suas crescentes caravanas comerciais, ou que me encomendou grandes quantidades de carnes nobres para promover banquetes cuja entrada era bastante bem cobrada. Ainda sim, enfileiravam-se interessados.
Sim, a vida era boa. Viajando além de Umbala vi o mundo pelas mãos de meu sogro. Visitamos terras longínquas e conheci todos os povos do mundo seco, o mundo civilizado de Antesmar: os homens das planícies, os elfos dos bosques (e mesmo alguns elfos cavernosos); os gnomos; os anões. Ouvi histórias dos temíveis moros, que sacrificavam humanos em rituais profanos, e dos exilados, a meia-espécie que nascia do cruzamento mal sucedido entre diferentes raças.
Um dia, ao retorno de uma longa viagem de cinco meses, conheci a primeira grande reviravolta em minha vida: Niela, grávida de Amara, com o ventre saliente desfilando pela casa. Não posso apagar as noites em que rezei a Uller e a todos os deuses da Copa da Árvore para que fosse um varão, um caçador, meu primeiro filho. Mas Amara, quando enfim veio ao mundo, provou-me o óbvio: a vontade dos homens não pode se sobrepor à divina. Mas alegria. Foi a criança mais encantadora que Umbala conheceu; era forte, ágil, esperta. Hoje, aos catorze anos cavalga como poucos na aldeia, sabe sobrepujar qualquer animal pela inteligência e astúcia, embora seja convincente no manejo do bastão e do arco, e, para meu orgulho pessoal, lê e fala duas línguas, a nossa e a dos elfos silvestres, que aprendeu pelos livros que o avô continua a trazer de suas expedições maravilhosas. Saudade, flor do bosque, palavra cantada. Saudade do som de seu flautim élfico, que só ela sabe fazer soar, encher o ar de nossa casa. Era uma vida boa.
Mas a segunda reviravolta veio, e anos depois Niela engravidou novamente. Teimoso, rezei por um menino, redobrando preces. Irônicos, os deuses o enviaram, enfim. E este menino, este pedido, este presente... A minha vida ruiu. O caçador que não confia em si não pode sair à selva, pois o primeiro inimigo mora dentro de nós, diz um velho ditado.
Algo estava errado, muito errado, com um menino de um ano que mal mexia um músculo, face arroxeada, fraqueza, constante falta de fôlego. Filho de fortes, filho de caçador. O xamã dera quatro, no máximo cinco anos de vida para ele.
3. Emboscada
Espere. Sons. Paciência. Niela estava certa, a caça não demanda tanta filosofia. Alguma esperteza, talvez. E malícia. Mas agora é preciso aquietar a mente e agir como predador. Secar as lágrimas e afiar o coração: será o inimigo mais formidável que jamais enfrentei.
Caminhei vagarosamente em direção à origem dos sons – grunhidos roucos, produzidos na parte inferior da garganta, por alguma vibração inumana de gargantas inumanas. Era um tipo bizarro de conversa, de comunicação precária entre enormes bestas conhecidas como Desossadores. Estavam decidindo para onde ir, agora que a madrugada estava prestes a terminar, as barrigas estavam cheias de carne – por Uller, nem quis saber se de gente ou bicho! Precisava avistá-las, mas sem ser visto nem sequer percebido por seus ouvidos e narizes avantajados. Um ruído difuso de água corrente era audível por baixo da sinfonia grotesca de pigarreios, gemidos e grunhidos das bestas. Estavam saciando sua sede após o jantar.
Aproximei-me com o máximo de cautela concebível para tal situação. Eu estava no auge de minha forma, forte como um touro, impetuoso como um tigre, sanguinário como um leão acuado e faminto. Há seis semanas caçava essas bestas cinzentas, talvez as criaturas mais temidas de todo o mundo habitado. Queria provar a mim mesmo que não era um fraco, nem um fracassado. Desde os primeiros meses após o nascimento de Aillôn cruzei a tênue linha que separa o caçador metódico do obcecado, o equilíbrio entre sobrevivência e matança.
Agora, porém, era necessário conter os instintos selvagens: diante de mim estava a última possibilidade de cura para o meu filho querido. A derradeira esperança.
Lembrei-me das palavras de Clarador. Eu não podia falhar.
Contra o vento, rastejando lentamente, sem nada além das calças já surradas de couro, a esfarrapada camisa de algodão verde, os braceletes de couro com o símbolo do arco vermelho e minhas armas – o velho machado e a nova adaga rubra que Clarador me dera –, aproximei-me apenas o suficiente. Mordia a lâmina da adaga com força, carregando-a nos dentes. O machado ia à mão direita, mais acostumada a seu peso, e que se confundia com a própria extensão do braço, dada a perícia adquirida nos anos todos.
Fiz uma prece silenciosa para que Uller enviasse sua seta certeira ao coração das bestas que eu atacaria em instantes. Precisava apenas de um motivo para que me odiarem cegamente, para que me perseguissem até a morte. E lhes daria esse motivo agora. Alcancei o tronco de uma árvore larga, com a copa espessa e rodeada por vegetação alta no chão. Ajoelhei-me, de costas para a madeira. Virei lentamente a cabeça e os vi pela primeira vez, meus inimigos, minha presa, minha razão de matar e morrer.
Eram três, dois adultos e um jovem, este com pouco mais de um metro e meio. Os outros tinham o dobro disso, imaginei. O maior de todos estava ajoelhado ao lado do córrego, sorvendo sua água fresca e convidativa. Grunhia entre um gole e outro, nacos de carne grudados nos afiados dentes, que se projetavam para fora da boca desordenadamente. Ele era prioridade. O outro grande, de pé, tinha uma das mãos decepada, mas não parecia se incomodar com isso. Olhava para o menor, que retribuía o olhar com curiosidade e apontava para aquele braço bestial bruscamente interrompido, curioso. As barrigas estufadas, salientes. Pareciam todos satisfeitos. Talvez fosse uma família.
Sorri. Seria família por família, então. Pelo Arco de Uller, eram três bestas imensas contra mim, apenas.
E, mesmo assim, eles não tinham nenhuma chance.