O som do alarme me indica que é hora de começar mais um dia. Levanto-me da cama e me dirijo em direção ao banheiro, lá, olho no espelho e percebo que está evidente que eu não consegui fechar os olhos por apenas um segundo nessa noite. Vou em direção ao chuveiro, abro-o e deixo a agua quente cair sobre meu corpo cansado, na esperança de que aquilo me aliviasse e quando eu abrisse os olhos de novo estaria descansado, sem olheiras, e prestes a ir vivenciar um dia maravilhoso. O som da voz da minha mãe me chamando, tira-me de meu devaneio:
- Filho, você já terminou? Cuidado para não se atrasar no primeiro dia de aula, você tem que causar uma boa impressão na escola nova. O café da manhã está na mesa, desça logo.
Desejei gritar, socar a parede e dizer a ela o quão pouco animado eu estava para ir a uma nova escola, o quão desanimador seria ir a um lugar onde ninguém lhe conhece, mas todos te olham como se fosse um produto a mostra pronto para ser levado para a casa de alguém e ser devorado. Os olhos constantes, a risadas baixas, na esperança de que você não perceba, mas, eles não dão conta de que fazer isso somente lhe ajuda a perceber. E a pior parte: Fazer amigos. Fingir ser algo que você não é somente para participar de algum grupo social no qual todos provavelmente notaram algum fator engraçado em você e não o dizem por que são obrigados por alguma força social a “ser legal com o novo garoto”. Antes que perceba, estou em mais um de meus devaneios e como sempre, a voz da minha mãe me chuta do meu mundo:
- Filho, você está bem?
Se eu estou bem? Queria dizer a ela tudo que eu pensei antes, mas tudo que consigo responder foi um simples e seco:
- Eu já estou saindo, mãe.
Termino o meu banho. Vou para frente do espelho, com a esperança de que um novo rosto esteja me olhando quando eu o olhar, mas essa pequena expectativa desaparece quando tudo que consigo é um par de olhos castanhos lhe encarando com olheiras enormes e um cabelo desarrumado.
- Bem, poderia ser pior, ao menos eu estou vivo. Se é que posso chamar isso de viver. – Digo a mim mesmo numa esperança de melhorar o que estava por vir.
Visto-me, e começo a escovar os dentes, e só então percebo o tanto de pensamentos que você pode ter no momento em que acorda, e esquece-los quando você realmente acorda para a realidade. Pergunto-me se mais pessoas fazem isso, ou se é somente eu que sou paranoico o suficiente para não conseguir apenas acordar, ter um bom café da manhã e sair de casa esperando que tudo seja bom durante aquele dia. Termino, e pego o meu celular na tentativa inútil de haver alguma notificação. Para minha não surpresa há uma mensagem da Uva:
Oi, Will. É seu primeiro dia na nova escola né?
Espero que seja melhor do que antes, e,
Que dessa vez você consiga fazer alguns amigos
Eu não quero ser a única a ter que olhar esses
Seus olhos castanhos tristes durante a minha vida toda.
Brincadeira, você sabe que eu amo o seu olhar triste, não é? <3
De qualquer forma, se quiser passar aqui depois da escola (eu sei que você vai),
Eu estarei te esperando.
Até, meu animalzinho triste <3
Apenas fecho o celular. A maneira que ela me trata faz parecer que eu sempre irei correr para o colo dela quando as coisas estiverem ruins, e que ela nunca poderia se livrar de mim. Afinal, eu sou o animalzinho triste dela, não sou?
Pegou minha mochila, meus fones e abro a porta do meu quarto. Desço as escadas e vou para a cozinha onde encontro meu pai, irmã, e mãe na mesa comendo o café da manhã. Vou direto ao armário pegar um copo e me sirvo de suco de laranja e algumas fatias de pão que estão na mesa e me sento. Faço tudo isso em extremo silencia até que meu Pai diz:
- Bom dia, Filho. Como está se sentindo hoje? Animado para ir para a nova escola? – Ele ri, na esperança de que eu vá parecer menos com um cadáver que acabou de sair de um banho de formol e parecer mais com seu filho.
- Estou bem animado, Pai! – digo em tamanha fajuta animação, somente para ele se sentir melhor.
- Esta vendo, Clara? Eu disse que nosso filho iria gostar da ideia de uma escola melhor. – Ele sorri para a minha mãe.
- Mas é claro que ele iria gostar! Ele é nosso filho! E agora ele poderá aproveitar mais oportunidades numa escola do seu nível, não é filho? – Ela passa a mão as minhas costas enquanto sorri.
Seus dentes brilham, e por um momento tenho a impressão de estar começando a ter a visão ofuscada pelo brilho, então apenas sorrio de volta e me concentro nas fatias de pão que estão sobre o prato, na esperança vã de sentir alguma fome e talvez comer uma delas, enquanto não sinto isso, apenas bebo um pouco mais do suco.
- É impressionante como a cada dia você se parece mais como um cadáver. – Disse minha irmã, enquanto ria e mexia em seu celular, provavelmente conversando com suas amigas que só se importam com qual é o novo astro teen do momento.
- Não fale assim do seu irmão, Vanessa! – minha mãe diz, elevando sua voz em plena manhã. Ao contrario de você, ele é muito inteligente e pensa em coisas realmente úteis, não em astros teen’s e coisas do momento. E, além disso, ele tem uma linda namorada, não é William?
Antes que pudesse simplesmente responder, e mentir que ainda estava namorando a Lívia e que tudo estava bem, minha irmã, mais uma vez, toma à dianteira e diz antes que eu possa apenas esboçar alguma reação:
- A Lívia?! – Ela ri em escarnio. Você não sabia mãe? Ela trocou o nosso homem-cadáver por alguém que realmente poderia dar abraços quentes nela, não só arrepios gelados.
É incrível como uma garota de 12 anos pode conhecer mais da sua vida do que os seus pais, eu me pergunto se há algum lugar onde garotas de 12 anos me espionam e falam secretamente da minha vida, e da vida de outros caras semelhantes – Embora eu duvide que exista alguém que se pareça comigo. E antes que você se pergunte quem foi Lívia. Era uma garota com quem eu costumava sair – ou namorar, eu realmente não vejo a diferença. Passamos um bom tempo juntos, mas como sempre, eu não sentia nada por ela, então, simplificando a historia, ela resolveu me trocar por um cara que vestia roupas de couro estilo anos 80 e andava em uma moto que fazia mais barulho do que propriamente se movia, seu nome era Jim, James, Ótario. Era esse o nome por qual eu o chamava, digo, eu não fiquei magoado por ter terminado com a Lívia, mas ela poderia ao menos ter me dito que estaríamos terminando antes de eu a ver beijando esse cara.
Levanto-me, bebo o meu copo de suco e depois o encho, ando até a minha irmã, e derrubo todo o suco sobre ela, somente para ver se ela responderia tão rápido aquilo como respondeu ao meu frustrado e antigo namoro.
- É bom, não é? Pelo menos está gelado como eu. – Digo, rindo histericamente enquanto meu pai começa a gritar comigo, e minha mãe vai pegar toalhas para enxugar a minha irmã que esta chorando de raiva e me amaldiçoando em alguma nova língua teen.
Finalmente uma boa coisa nesse dia, pensei, e então escuto uma voz fraca me chamando e percebo que é a minha mãe me chutando mais uma vez de meu devaneio e perguntando se aquilo que minha irmã idiota disse é verdade. Percebo que o copo de suco ainda está na minha mão e minha irmã ainda está seca. Encho o meu copo e respondo:
- Sim, apesar de não ter ocorrido exatamente isso. E eu acho que garotas da sua idade deveriam estar se preocupando com o tamanho dos peitos, já que você parece uma tábua, em vez de uma pessoa. – Rio, enquanto olho para minha irmã.
- Pelo menos eu não morrerei sozinha. – Ela diz, enquanto volta a mexer no celular.
- Ei, Ei! Já trocaram tiros demais para apenas uma manhã, não acham? E seu irmão com certeza já deve ter outra garota, não é? – Diz meu pai, olhando para mim.
- Sim, já tenho outra garota.
- Viram? Esse é o meu garoto – Ele ri alto o suficiente para que os vizinhos pudessem o ouvir.
Levanto-me, e coloco os fones. Dirigindo-me para a porta.
- Não quer que eu te leve? Não irei trabalhar hoje – Meu pai pergunta.
Aceno que não e abro a porta para contemplar o maravilhoso dia com que fui presenteado pelo mundo, e por um momento, um milésimo de momento pensei que algo bom realmente poderia acontecer, mas isso logo acaba quando o choque da realidade bate em minha porta e eu não tenho opções a não ser abri-la. Começo a andar pela passarela de pedras que há no jardim e logo abro o portão. Contemplo a linda e caótica paisagem urbana, onde possui algumas pessoas passando pela rua, alguns estudantes, senhoras, e um homem que parece correr todos os dias do ano para manter a boa forma do corpo. Esse cara em particular, todas as vezes que o vejo ele esboça um sorriso como se me conhecesse a milênios, e em todos esse milênios ele tivesse esse mesmo sorriso que se parece como uma parede branca e brilhante.
Ignoro-as, por mais que eu as tenha descrito, eu poderia dizer muito mais sobre elas, mas prefiro as ignorar. Coloco alguma musica, e aumento o volume ao máximo. E de repente me vejo isolado de todo e qualquer som do mundo, há somente eu e a musica em uma perfeita harmonia no meu cérebro, no qual se dividem pensamentos e melodias. Continuo andando, me importando somente com a música, até que chego a frente a um prédio gigante, pintado nas cores de azul, verde, e vermelho. Numa estranha harmonia com os uniformes dos estudantes que estavam chegando naquele local, uma estranha harmonia comigo, que me faz pensar que aquele prédio esteve ali a minha vida inteira e só agora eu percebia a sua existência, mas isso logo se desvai quando me lembro de que essa nova escola foi construída no começo do ano passado. Um grande portão elétrico começa a se abrir com um ruído que é possível de se escutar até mesmo com o volume dos fones no máximo. Os alunos começam a entrar, como se estivessem familiarizados com aquele ambiente, bem, em breve eu iria me sentir daquele jeito, ou pelo menos deveria me sentir daquele jeito, visto que iria passar boa parte do meu tempo naquele lugar agora. Olho para o grande letreiro em branco, que está escrito:
Escola Particular Mc.Cain
A única coisa que consigo pensar é no quão estupido aquele nome era, mas tento ignorar esse pensamento e dirijo-me a um quadro que aparenta ser o mapa da escola e começo a procurar pela minha sala. “2 ano A, 2 ano A, 2 ano A....” é a única coisa que penso enquanto meus olhos percorrem atentos o mapa para saber a localização da sala quando sinto uma mão apertar meu ombro, me viro e me deparo com um garoto um pouco menor que eu, de cabelos loiros e olhos negros que eram ofuscados por um grande óculos.
- Quem é você? – Pergunto, tirando a mão dele do meu ombro.
- Ah, me desculpe. É que você estava um pouco na frente do mapa, então estava difícil de ver – Ele diz, me olhando com aquelas duas esferas negras e maciças.
- Claro, tudo bem. Dou um passo para o lado para que o garoto pudesse achar o seu destino, o que era consideravelmente difícil, visto que aquele mapa não parecia com o mapa de uma escola, mas sim de uma nova cidade que acabara de ser construída e eu não tinha noção dela até aquele momento. Continuo na minha busca pela classe do 2 ano A.
- A proposito, meu nome é David – Diz o garoto, estendendo sua mão.
- William. Respondo, enquanto concentro-me em achar a classe do 2 ano A.
- Também é novato aqui?
- Sim, por favor, poderíamos não tentar ter uma conversa? Eu estou tentando achar algo.
- Desculpe. Ele se vira e se concentra no mapa.
Finalmente, acho a localização do 2º A e me viro para seguir naquela direção.
Passo por um enorme corredor, que adentra em um hall, que possui algumas portas, uma escada subindo ao segundo andar e um balcão de recepção. Subo as escadas e me dou conta de que vários outros estudantes estão fazendo o mesmo, como se estivessem descobrindo um território. As escadas levam a outro salão onde a um corredor com uma placa central, dando informações sobre como chegar às salas dali. Olho rapidamente e me dirijo ao corredor onde possivelmente está localizada minha sala. Sigo olhando os nomes das salas que estão estampados nas paredes ao lado de cada porta e finalmente encontro “2ºA”. Uma sensação de alivio toma conta de mim, mas desaparece rápido, e uma sensação de terror me domina. Você deve estar se perguntando por que alguém sentiria medo de entrar em apenas uma sala de aula, eu também me perguntei isso. A resposta está por vir.
Abro a porta e percebo que já há alguns alunos dentro da classe, meu olhar se foca automaticamente na ultima carteira ao lado da janela. Dirijo-me para ela sem olhar outros detalhes, tenho apenas o lugar em minha vista, e continuo assim, até quando chego até ele. Tiro minha mochila e a coloco encima da mesa, pauso minha música e retiro os meus fones.
Abaixo a cabeça e espero pela hora da aula começar. Tudo estava ótimo até que pensamentos de como aquelas pessoas provavelmente seriam as que iriam ser meus novos amigos começam a me aterrorizar. Todos parecem tão confortáveis com aquela situação, como se estivessem sendo treinados exclusivamente para aquele dia a anos. Concluo que a melhor maneira seria evitar conversar com qualquer um mais do que o necessário pelo resto do ano, se eu não os procurar, eles também não me procurarão.
Um professor entra na sala e meus devaneios são quebrados por uma enorme apresentação, irei tentar representa-la para vocês:
- OLÁ, CRIANÇAS! Eu sou o professor Maxwell, mas todos vocês podem me chamar de Max! Eu serei o professor de Física de vocês e espero que todos nós possamos ter um bom ano juntos! Tenho a certeza de que nenhuns de vocês aqui me conhecem, e eu também não conheço nenhum de vocês – ele ri. Vamos começar com uma brincadeira! Eu vou apontar para algum de vocês, e você se levanta, diz o seu nome e o que mais gosta de fazer nas horas vagas! Então, vamos começar! Que tal você, a garota de cabelos castanhos, porque não começa? – Disse ele apontando para essa tal garota.
E nesse momento, apenas nesse momento, eu entendi o motivo de eu estar tão aterrorizado. Aquela garota, não era simplesmente uma garota. Aquele tom de pele rosada e seus cabelos cor de mel longos e inconfundíveis me fizeram ter náuseas e perceber que aquele ano seria pior do que pensei, antes que todos pudessem adivinhar o seu nome, eu já sabia, e antes de dizer a mim mesmo, ela se levantou, e clareando a minha mente, disse, com sua doce voz:
- Eu sou a Lívia! Tenho 16 anos e o que eu mais gosto de fazer é ler! Espero que possamos nos dar bem nesse ano! – Ela sorri, enquanto eu abaixo a cabeça e mergulho na imensidão da cor preto da minha mochila.
Capitulo II
É incrível a quantidade de pensamentos que você pode obter ao olhar somente para a sua mochila. Primeiro pensei que estava sonhando e que logo iria ouvir o som do meu despertador, depois, pensei que estava tendo alucinações e aquela era somente alguma outra garota parecida com ela, e ainda consegui pensar que tudo aquilo estava realmente acontecendo e eu poderia me levantar daquela carteira, ir em direção à janela e pular.
A parte onde digo que tudo aquilo estava acontecendo, infelizmente, era a única verdade. Por que havia de ser ela? Depois de todo esse tempo, por que um fantasma do meu passado teria que aparecer justo agora e me assombrar? Por que eu terei que passar o ano inteiro vendo sua face toda vez que ponho os pés nessa sala? Por quê? Por quê? Já não bastava o que ela fez antes, agora ela teria voltado para terminar o seu plano maligno?
Continuei me questionando enquanto olhava ao infinito de minha mochila e ouvia um sussurro que parecia ser a voz dela, um sussurro que foi se tornando uma fala, até que se tornou um grito que me chutou pra fora de meus pensamentos. Felizmente, não era a voz dela, era só a minha mente contribuindo para a minha tortura, quem estava realmente falando era o meu professor de Física:
- Ei! Você ai, o de cabelo grande, você esta se sentindo mal?
- Hã, não... Não! Eu só estava pensando um pouco. É só isso. - Eu disse, enquanto todos aqueles olhos estavam fixados em mim, inclusive os dela.
- Não sabia que é falta de respeito pensar enquanto outra pessoa se apresenta, rapaz? - Ele disse, andando em minha direção.
- Eu deveria prestar atenção em toda baboseira que sai da boca dos alunos? Não sabia que tinha me tornado professor. – esbocei um sorriso.
Ele para ao meu lado e em seguida coloca uma mão em meu ombro e diz
- Acalme-se rapaz, ninguém aqui é seu inimigo. Por que não nos diz o seu nome, que tal?
- William. – disse quanto tirava a sua mão de meu ombro.
- William... Hã, obrigado Lívia! Agora, por que não deixamos o Will aqui se apresentar? Vá em frente Will. – Ele se levanta e caminha em direção a sua mesa.
- Claro. - Sussurro enquanto me levanto.
Não olhem para mim, não ouçam uma palavra do que eu digo, pensem nas coisas fúteis que vocês provavelmente pensam todos os dias, mas não continuem me olhando fixamente. Era isso que eu pensava enquanto me levantava, infelizmente, isso não aconteceu.
- É... Meu nome é William, tenho 16 anos.
Começo a me sentar enquanto todos olham e o professor grita:
- Por que não fala mais sobre você, Will? Diga quais são suas expectativas para esse ano!
Levanto-me novamente e digo rápido.
- Espero que esse ano acabe tão cedo quanto o ano passado. – sento-me.
É incrível como parece que o seu dia não vai piorar, ele trabalha o máximo que pode só para bater em seu rosto e fazer as coisas piorarem.
Estava tudo bem enquanto eu estava me sentando e todos me olhavam perplexos, com uma enorme admiração pela minha descrição cativante e emocionante. Até que, aquela doce voz irritante, resolveu tirar-me do meu quase sossego:
- É você Will? – Ela me olha como se estivesse procurando um par de seus brincos que foi trancado em uma caixa e que deveria ser esquecido para sempre.
Lá vamos nós, pensei.
- É, eu acho que sou o Will.
- Ai meu Deus! Eu não acredito que é você! Você mudou tanto!
Ah, jura que eu mudei tanto? Talvez você nunca tenha me conhecido.
- Espera, vocês já se conheciam? – Meu professor pergunta, tentando tornar aquilo pior do que já estava.
- Não. – digo.
- Sim! – ela responde. Eu e o Will nós conhecemos há muito tempo, éramos melhores amigos, inseparáveis. - ela sorri. Como aquele sorriso tão bonito pode ser tão cínico?
Na verdade, eu sempre me impressionei com a capacidade dela de inventar historias e fazer com que as pessoas acreditassem nelas. Lembra-me de quando ainda estávamos juntos. Meus pais estavam fora e nós combinamos de passar o dia juntos. Não foi só isso que aconteceu, meu pai, tem um grande estoque de bebidas. Agora, o que dois adolescentes completamente sozinhos com uma variedade de bebidas iriam fazer? Nós ficamos bêbados, é claro, e depois fizemos algo que eu não gosto de me lembrar. De qualquer maneira, tive que levá-la para sua casa, fomos nós dois, cambaleando pela rua, agarrados um ao outro, até chegar a sua casa. Quando chegamos, ela começou sua incrível atuação. Seus pais abriram a porta para ela e, como se fosse mágica, ela estava completamente sóbria. Aquilo foi tão real que até mesmo eu me perguntei se nós estávamos bêbados ou era só a minha imaginação. No outro dia, ela me contou que disse aos seus pais que aquilo havia sido só um encontro romântico comigo e que não havíamos feito nada de errado, o que claramente era mentira, mas seus pais acreditaram cegamente.
A única coisa que eu não podia imaginar é que mesmo depois de tanto tempo, eu ainda me impressionaria com aquilo, mas dessa vez eu não acreditava, não mais.
- Ora, que bom que temos dois amigos aqui! Será mais fácil para vocês se enturmarem – disse meu professor, rindo. Bem, vocês serão dispensados as 09h30min e ainda são 07h30min, vamos deixar a saudações de antigos amigos pra depois e continuar com as apresentações. Você aí, a garota de óculos, é a sua vez.
Eu não sei por que, mas quando aquela garota começou a falar, eu automaticamente olhei em sua direção. Ela parecia tímida, sua fala era tremula, mas apesar disso ela era bonita. Tinha os cabelos longos e negros, que combinavam com seus olhos, que pareciam com duas pedras de ônix. Seu óculos eram de um tom azul, o que causava um grande contraste com seus olhos e sua pele branca.
- O-oi... Meu nome é Agatha, tenho 16 anos e o que mais gosto de fazer é escrever poemas.
Ela disse isso tão rápido, que alguns ainda tentavam entender o que ela havia acabado de dizer.
Depois disso, eu deixei me levar pelos meus pensamentos.
Pensei no que a Uva estaria fazendo agora, no que estaria acontecendo no centro da cidade, na cor dos cabelos da Agatha, na voz irritantemente doce da Lívia, no que iria fazer para evitar contato ao máximo com todos da sala e o que iria fazer após sair da escola.
As outras duas aulas passaram rápido, e foram exatamente como eu precisava que fossem, com ninguém me notando, e eu não dando a mínima pra nada.
O sinal tocou, eu me levanto pego minha mochila e coloco em meu ombro. Ando em direção à porta da sala, para finalmente sair daquele lugar, quando sinto uma mão puxando-me pelo ombro. Ótimo, mais alguém para encher o meu tempo com coisas inúteis, pensei.
Viro-me, e me deparo com os maiores olhos que eu já vi, e infelizmente, eu conhecia a dona deles: Lívia.
- O que você quer? – pergunto, tentando me livrar mais rápido possível daquela situação.
- Eu só achei que poderia te acompanhar até a saída da escola, isso seria um problema?- ela me olha fixamente.
- Eu ainda não controlo as pessoas a minha volta, infelizmente. – me viro e começo a andar na esperança de que ela não me siga, mas essa esperança desaparece quando a ouço caminhar ao meu lado.
Caminhamos a maior parte da escola em silêncio, e só quando estamos nos aproximando da frente da escola, ela me pergunta:
- Vai continuar em silencio e não vai falar comigo?
Não respondo, o silêncio é mais acolhedor.
- Qual é Will. Aquilo já passou, é passado. Nós não podemos ter uma conversa como dois amigos?
Paro e a seguro pelo ombro, começo a encara-la e pensar em tudo que eu poderia dizer sobre a nossa historia para que aquela conversa terminasse ali mesmo e não depositasse nenhuma semente mais. Mas apesar de todas as coisas que vieram em minha mente, a única que eu consegui dizer foi:
- Não.
Solto-a e começo a andar despreocupadamente, ouço o barulho do zíper da bolsa dela, olho para trás e a vejo retirar um caderno, pegar sua caneta e escrever algo. Ela rasga um pedaço de papel e vem me entregar.
- Toma, esse é meu novo número de celular, pra caso você pense melhor e queira conversar comigo. Quem sabe nós não podemos ser amigos.
- Você ainda não entendeu? Eu não quero ser seu amigo, eu nem queria ao menos ter te conhecido. Faça como eu, finja que não me conheça, eu farei isso, você queira ou não. Entenda uma coisa, Lívia, você não pode cometer seus erros e achar que tudo vai se concertar com um punhado de números escrito num papel e algumas palavras bonitas. E a propósito, diga ao ótario que eu mandei lembranças, se ainda estiver com ele. - eu disse, enquanto ria e continuava andando. Ela continuou parada, talvez ela não esperasse que eu dissesse aquilo. Mas como sempre, eu continuei não dando à mínima.
Ao sair pelos portões da escola, pego meu celular e mando um SMS a minha mãe, dizendo que irei para a casa da Ana e chegarei tarde em casa.
Coloco meus fones e deixo a música inundar o meu cérebro, a única coisa que há em minha mente é o caminho para a cada da Uva, o qual eu vou seguindo sem preocupação, eu já havia feito aquele caminho tantas vezes que é como se ele estivesse entalhado na minha memória.
Chego a sua casa, toco o portão e percebo que ele está destrancado, abro-o e vou em direção à porta, ao chegar lá, aperto a campainha. Depois de alguns minutos a porta se abre e revela um cabelo roxo completamente bagunçado e olhos semicerrados.
- Hey. Acordei a bela adormecida?
- É claro que acordou! Eu pensei que você só viria à tarde. – ela disse enquanto passava a mão em seus olhos.
- Parece que pensou errado – ri.
- Você tem sorte por eu gostar dos seus olhos, entra logo antes que eu mude de ideia. – ela saiu da porta e adentrou a casa.
Abri o resto da porta, a fechei e comecei a ir em direção da cozinha enquanto ela subia para o seu quarto no segundo andar.
A casa estava bem arrumada, mas em compensação, a geladeira só estava abastecida de algumas pizzas semi-prontas e vinho. Peguei uma garrafa, um copo e me dirigi em direção ao seu quarto.
Chegando lá, sentei-me na cama dela que estava toda desarrumada e me servi um copo de vinho.
O quarto da Uva é bem simples, tem uma cama de casal, o guarda-roupas dela, seu computador, uma televisão na parede com um PlayStation 4 conectado a ela e uma estante com vários livros.
Há uma porta que leva a um banheiro, estava aberta e era possível ouvir o som dá agua caindo do chuveiro.
Bebo o restante de vinho do meu copo e decido começar a tomar diretamente da garrafa, enquanto estou me embebedando ouço a voz dela:
- Bebendo ainda cedo? O que aconteceu?
Abaixo a garrafa e olho para ela. Ela esta nua, algumas gotas de água escorrem pelo seu corpo enquanto ela ainda está escolhendo alguma roupa confortável para vestir, já estou acostumado com isso, então é como apenas outro dia normal.
- Desde quando você liga para o que acontece no meu dia-a-dia? – pergunto, enquanto continuo bebendo.
- Tem razão, eu não ligo mesmo. Mas você vai me contar de qualquer maneira, então começa a falar.
Ela termina de se vestir e vem em minha direção. Pega a garrafa da minha mão e senta na cama, dá um longo gole e começa a me olhar.
- Ah, a escola foi um saco, mas isso não é novidade. A única coisa nova foi que encontrei a pessoa mais improvável na minha classe. – disse, enquanto pegava a garrafa de volta e bebia. Á propósito, quando seus pais voltam?
- Eles ainda vão passar um tempo na Europa, mas diga, quem é essa pessoa que você encontrou?
- Lívia.
- Espera, Á Lívia? – ela começa a rir. Então você vai pro seu primeiro dia de aula e encontra a garota que te deixou na sua classe? Tenho inveja da sua sorte, Will.
- É, é... Eu sei o quanto você me inveja.
- Mas, o que ela queria?- ela mais uma vez pega a garrafa e começa a beber.
- Ela começou a dizer coisas sobre eu e ela sermos amigos novamente, e tentou me dar o seu número de telefone e...
- Chega! Isso já ficou chato demais.
- Mas foi você quem pediu pra eu contar. – pego a garrafa e bebo até o fim, em seguida, a coloco nos pés da cama.
- É, tanto faz. Agora vai dizer que você sente falta dos tempos que passou com ela? Você sabe que vai ser meu brinquedinho pra sempre, não sei por que se preocupa com o que aconteceu no passado.
- Não é que eu sinta falta, é só que é estranho algo que você tem por algum tempo acabar com um simples estalo de dedos. E pra você, bem, eu sou só um brinquedo, não é?
Então, ela fez o que sempre faz: Veio pra cima de mim e sentou em meu colo, colocou suas mãos no meu pescoço, me beijou e em seguida sussurrou ao meu ouvido:
- Vai dizer que também preferia fazer sexo com ela do que comigo?
- Nós dois sabemos que isso não é verdade.
- Então me prove que eu estou errada e faça sexo comigo agora. - ela começou a tirar sua roupa.
Naquele momento, eu senti uma mistura de indecisão com excitação, e decidi que a coisa mais sabia a se fazer era se entregar a ela mais uma vez. Eu precisava daquilo para esquecer o que havia acontecido de manhã. Então, comecei a beijá-la e tirar a minha roupa. Naquele momento, tudo a minha volta sumiu, e a única coisa que eu via era a Ana.