Todas as manhãs acordava dez minutos mais cedo do que todos os outros cá em casa. Despachava-me o mais rápido possível e esforçava-me para que todos acordassem e se vestissem sem complicações. Isto, porque sabia a que horas passavas pela minha rua. E sabia que enquanto eu passasse por lá com o carro, ver-te-ia.
Num dia mais chuvoso, podia jurar que tinhas olhado para mim... Que doce ilusão! Como se alguma vez soubesses quem ou sou que me apressava para ter ver. E quanto eu imaginei o nosso casamento e a nossa vida... Tudo com a maior inocência, como é evidente.
Até que me contaram que te ias casar. Acabou aí o "sonho", se é que lhe posso chamar sonho. Nunca mais perguntei por ti a ninguém. Ignorei que te conhecia e fiz por te esquecer completamente.
Espero que estejas bem com ela e espero que sejam felizes. Sei que nunca me conhecerás e rogo para nunca te conhecer.
Não sei como lidaria com a vergonha consequente destas memórias.
Tenho consciência de que nunca te vi, quando te via, via, sim, um outro que não tu. Um outro que era perfeito para mim... Outro tal que nunca serás e que nunca conhecerei. Mas obrigada por teres emprestado a tua cara a uma paixoneta da minha adolescência.