Enquanto as folhas caiam, eu vivia o clichê novaiorquino. Caminhava pelas ruas frias e movimentadas acompanhado de um chá.
- Dar um tempo. Foi isso que minha psicóloga recomendou, e por fim, aqui estou.
Me chamo Gabriel. Faz dois anos que me mudei para Nova Iorque para escrever meu livro, parece um filme chato mas a cidade realmente aumenta as chances de se conseguir um editor bom. Aluguei um apartamento, no centro da cidade, e com uma vista para minha padaria preferida. Divido ele com uma menina que conheci durante a viagem, ela é brasileira também, ofereci ajuda a ela no primeiro dia, com os diálogos em inglês.
O nome dela é Larissa, é uma boa pessoa, prometeu cozinhar para mim, embora durante nosso tempo de convívio, eu sempre acabo por botar a ''mão na massa'' por ter mais tempo livre.
Como todo clássico, parece que é um requisito ter vizinhos clichês. No fim do corredor tem o Gustavo, um drogado que vive empurrando sua vida, mas no fundo é um bom homem. Tem o casal com picos hormonais no andar de cima. Passam o dia brigando e se resolvem com uma transa no fim do dia. Sinceramente não os conheço muito bem, mas o café que a garota faz traz um cheiro bom até aqui. E por fim, o dono do prédio. Um senhor beirando a terceira idade, literalmente curtindo sua aposentadoria. Bem, tudo isso faz parte de meu novo mundo, e aos poucos eu vou deixando minha maluquice para trás.
Enfim, podemos começar; É segunda feira, carregada dos resquícios de domingo a noite, começo o dia acordando Larissa como de costume; Ela tem mania de dormir até tarde. Talvez eu acorde-a por ela ser a encarregada do café, ou talvez pelas músicas que ela põe pela manhã, ou mesmo porque ela tem de ir a faculdade. Algumas vezes vamos a padaria em frente tomar café, mas geralmente apenas quando temos algo para comemorar. O café quase sempre é omelete, me acostumei com estes dois anos.
Minha rotina é divertida, mesmo familiarizado com a cidade, todo dia saio para visitar algo novo na cidade, ver rostos novos; Conhecer novas histórias, tudo isso é parte de minha terapia, inclusive estou indo hoje a uma casa de tratamentos especiais, nela ficam pessoas loucas, com todo o tipo de doença mental.
Talvez eu tire algo para meu roteiro, ou acabe agindo como um psicólogo e ouvindo alguns doentes, mas enfim, meus dias normalmente valem a pena.
Bom, chegando no lar dos loucos, tenho tempo de sobra pra apreciar a construção e sua arquitetura engenhosa. A casa tem um grande gramado com algumas mesas, talvez como qualquer outro clínica, com excessão de uns macacos – sim macacos – que foram postos lá por um grupo de neurologistas que estão estudando o comportamento deles.
Sento-me perto a uma moça quieta, e de lá, admiro a semelhança entre nós, seres humanos, e os primatas. É algo realemente de se admirar, a macroescala de tempo da evolução fez algo incrivelmente lindo. Talvez não se equipare ao nosso cosmos com uma imensidão de galáxias e outras coisas bizarramente lindas, mas é algo que estou aqui observando e não me arrependo.
O tempo passa, e é chegada a hora do almoço. Talvez um dos momentos que mais me agrade do dia, pois eu sempre como algo em algum lugar totalmente diferente, e hoje, comeria em uma casa rústica na companhia de algumas pessoas loucas.
Eu sou muito chato para refeições, mas o cheiro que pairava no ar, seduzia-me aos poucos, ia me tentando e por fim, repeti o prato do dia umas três vezes. Uma espécie de camarão em um molho branco, deve existir algum nome para isto. Pelo resto da tarde, fiz parte do trabalho voluntário por lá, e aproveitei para conversar com alguns doentes. Conheci um homem que dizia ser de Marte, seu nome era Chris, fazia faculdade de astronomia antes de ser diagnosticado. O papo desenrolou, e ficou bom, realmente, mas era tarde, precisava ir já.
No fim do dia, apenas liguei para uma pizzaria local, talvez uma das melhores da cidade inclusive, e já levei uma pizza para casa. Na verdade, duas. Como se não bastasse a mim mesmo, um saco sem fundo – ainda mais quando se trata de pizza – Ainda tinha Larissa, que comia por três. Enquanto comíamos, botando o assunto em dia, eu não perdia tempo e aproveitava a imaginação aflorando para por tudo em minhas anotações, rapidamente surgia um capítulo novo de meu livro.