Launchorasince 2014
← Stories

Almas perdidas


Estava frio. Tal como a alma da pobre Julie. O frio não a incomodava, o que ela ia fazer de imediato perturbava-a muito mais. Nas suas mãos trepidas pelo frio trazia embrulhada num velho farrapo uma nova vida. Esta inocente bebe não sonhava que a sua mãe a estava a abandonar na porta de uma igreja. A realidade era esta, mesmo sem noção, esta menina de olhos castanhos estava a ser deixada, num ato tão pouco religioso, num lugar onde se prezam os valores morais.

Sem mais demoras, e para não ser apanhada fugiu daquele sítio. Correu as ruas todas como já o fazia há anos, sempre com um andar apressado. Tinha medo de ser julgada pelos outros, ou pior, por ela mesma. Ela não se orgulhava de ter engravidado, fora um erro, mas envergonhava-se muito mais por ter abandonado a filha que com toda a promiscuidade fez vir ao mundo. Não conseguia deixar de ver aqueles olhos que tanto a miravam, aquele castanho brilhante que reluzia como duas pedras preciosas nos anéis das verdadeiras mulheres dos homens que Julie acompanhava por dinheiro. Finalmente chegou ao seu apartamento.

Abriu a porta abruptamente e fechou-a com toda a sua força. Sentou-se no chão de soalho velho e imundo, repleto de estilhaços de garrafas de bebidas  alcoólicas que o seu chulo lhe atirou quando ela lhe mostrou a sua filha.  Repentinamente levantou-se e dirigiu-se para um móvel onde tinha guardada uma garrafa de vodka. Bebeu-a até a ultima gota. Desesperada para que a sua vida se tornasse algo melhor e sempre com aquela triste lembrança dos olhos da filha, que com a bebedeira já os confundia com os cacos no chão. Cambaleou até à varada e, sem muita premeditação atirou-se. Era um quinto andar de um prédio que se situava uma rua unicamente frequentada por drogados e prostitutas. O seu desespero era tão grande que ansiava sem muitas demoras encontrar a paz...

A rua estava calma até a queda de uma mulher bastante conhecida naquele meio provocar o caos. Quem assistiu a sua queda aproximou-se do local numa rapidez bastante admirável visto serem pessoas que se encontram num estado deplorável.os gritos de alegria por parte de algumas venderas de serviços sexuais pois odiavam a concorrência e, os sorrisos de alegria por parte dos narcotraficantes pois sabiam que as dívidas de Julie nunca seriam saldadas mesmo que esta estivesse viva, pois não existiam serviços sexuais suficientes que ela pudesse prestar que desse para cobrar os custos de uma viciada. Já que não poderia pagar, eles preferiam vê-la morta.

Numa autentica confusão, estes marginais começaram a profanar o corpo, já num estado bastante mau devido ao impacto da queda. Cuspiram, pontapearam e apagaram cigarros naquela pele ensanguentada e manchada devido a sua actividade quotidiana.

Após tanta imoralidade, chegou a policia que fora chamada por um dos viciados que assistira a tudo, o que fez com que aquela escumalha toda se dispersasse rapidamente pelas ruas. Entretanto chegou uma ambulância que levou o corpo para o hospital, para ser encaminhado para autopsia.  A autopsia revelou sinais de álcool e demonstrou também que todas aquelas feridas foram após a morte e, a policia concluiu que se tratava de um suicídio.

Caso encerrado, tal como o sofrimento carnal de Julie.