Launchorasince 2014
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Crashed the Wedding


"Eu te amo, mas não há nada que eu possa fazer."

Eu havia acordado com aquela mensagem chegando no meu celular. Era por volta de 11 da manhã de um sábado. Provavelmente o pior da minha vida.

Fechei os olhos e, por um momento, imaginei que tudo aquilo fosse um pesadelo e que nada estivesse acontecendo. Eu abriria os olhos e Luiza ainda estaria ao meu lado, com aquele sorriso tímido de todas as manhãs e o cabelo um tanto bagunçado de rolar a noite inteira de um lado para o outro. Ela nunca fora uma pessoa quieta enquanto dormia.

Abri os olhos lentamente e olhei para o lado. Nada. Eu estava sozinho. Suspirei e soquei o travesseiro do outro lado da cama. Incrível como ela parecia estranhamente enorme sem a presença de Luiza. Decidi que não ficaria deitado pelo resto do dia. Eu já tinha tentado de tudo, mas nada mudaria o fato de que minha garota se casaria com um cara qualquer aí, porque o pai dela queria.

Joguei as cobertas de lado, me levantei e me arrumei. Não estava com vontade de ficar em casa, mesmo que não soubesse para onde ir. Precisava de um lugar que não me fizesse ficar pensando nessas coisas. Desci rapidamente as escadas e entrei na garagem, ligando o carro e saindo sem nem me importar com o resto.

Não sei por quanto tempo vi as paisagens passando como vultos por mim. Não me importei também. Quando dei por mim, estava na divisa da cidade, sem motivo algum. Já passava das 18 horas quando me toquei que ficar parado no acostamento da rodovia era uma ideia nada inteligente e, com um longo suspiro, liguei o carro e me pus a dirigir novamente.

A noite estava quente, não havia uma nuvem no céu e as primeiras estrelas começavam a aparecer. Parecia ser injusto ter uma noite tão bonita naquele dia. Era como se ele zombasse de mim. Eu queria nuvens carregadas, uma chuva fria, torrencial, com direitos a trovões e raios. Queria uma noite mórbida para combinar com o meu humor.

Aquilo não estava adiantando em nada. Eu precisava de uma distração. Liguei o rádio e o final de uma música qualquer tocava, me fazendo perceber que era um dos CDs que Luiza havia gravado e que ela não deixa de ouvir sempre que saíamos. Suspirei exasperado. Aquilo era o extremo oposto de distração. Estava prestes a desligar a porcaria do aparelho quando uma música nova começou. Uma marcha nupcial (oh, ironia cruel) e logo em seguida guitarras, bateria e alguns sons de sirenes.

"I'm so rushed off my feet

Looking for Gordon Street

So much I need to say

I'm sorry that's on her wedding day

Coz she's so right for me"

Não pude evitar e comecei a rir. Quem diria que uma música pudesse descrever exatamente a situação daquele momento? Quantas vezes eu não ouvira Luiza cantarolar aquela canção e dizer que de fato seria engraçado, e até romântico, se um cara invadisse o casamento da mulher que ele amava para levá-la de lá? Eu me limitava a rolar os olhos e sorrir discretamente.

"Coz she's mine

And I'm glad I crashed the wedding

It's better than regreting

I could have been a loser kid

And ran away and hid

But it's the best thing I ever did

Coz true love lasts forever"

Naquele instante, foi como se algo se acendesse dentro de mim. Acelerei o carro e comecei a procurar desesperadamente pela igreja onde ela estaria. Eu sabia qual era, esse não era o problema. O contratempo era o horário. O relógio em meu pulso marcava 18h30min, então eu precisava ser rápido. Desviando de todo e qualquer sinal de congestionamento que eu pudesse encontrar, segui diretamente para o centro da cidade. Iria receber uma multa por excesso de velocidade, mas eu não podia me importar menos. Em um tempo record de 10 minutos, eu estava em frente à igreja que inúmeras vezes me fora mencionada. Algumas pessoas ainda estavam do lado de fora. Atrasadas, talvez. Estacionei o carro ao meio-fio, do outro lado da rua, e fiquei imaginando se estava fazendo a coisa certa. Eu te amo, dizia a mensagem de hoje de manhã. Não era possível que Luiza me dissesse isso se não sentisse. Eu a conhecia melhor do que ninguém. Ela não mentiria sobre isso.

Respirei fundo e continuei dentro do carro. Não havia a menor necessidade de entrar ainda. Eu precisava saber o que dizer e quando dizer. Fiquei imaginando se deveria o fazer naquela parte que o padre pergunta se tinha alguém que soubesse de alguma coisa para que aquele casamento não acontecesse ou se deveria simplesmente abrir as portas do salão e gritar "parem com tudo isso!". Eu estava confuso, então decidi que iria improvisar. Não ficaria ali por muito tempo, eu precisava agir ou toda aquela correria teria sido em vão.

Abri a porta do carro, sai, atravessei a rua e subi os degraus da fachada da igreja. Lentamente, empurrei as postas que estavam fechadas. Suspirei aliviado quando vi que não estavam trancadas e as empurrei um pouco mais, silenciosamente, até que surgisse o mínimo de espaço necessário para que eu pudesse passar. Adentrei um pouco mais e então pude ver a cerimônia acontecendo. Luiza estava lá, de costas para mim, em um vestido inteiramente branco, detalhado com rendas e um véu na cabeça. E ela estava linda. Não me pergunte como eu sabia, mas era simplesmente impossível ela não estar. Quero dizer, Luiza era perfeita.

De repente, senti como se toda a coragem se esvaísse de mim. A igreja estava lotada. Fiquei imaginando o que todos ali cochichariam e pensariam depois que eu interrompesse tudo aquilo. Que se dane, uma voz dentro de mim disse e respirei fundo. Isso, que todo mundo se danasse.

Fechei os olhos e respirei fundo mais uma vez. Era agora ou nunca. Lentamente, dei pequenos passos em direção ao corredor central, onde todo mundo poderia me ver e, ao que parecia, alguns já haviam notado minha presença ali. Para minha sorte, não precisei fazer nenhum tipo de escândalo ou pigarrear falsamente. Eu entrara justamente na parte em que o padre fazia a pergunta se alguém sabia de algo para impedir o casamento.

O silêncio na igreja era aterrorizador. As pessoas olhavam umas para as outras, como se se desafiassem a dizer algo. Ergui a mão.

-Eu! - disse em alto e bom tom.

Centenas de pares de olhos se voltaram para mim, mas eu não iria desistir agora.

Ergui a cabeça e sorri petulante ao ver a expressão do pai de Luiza. Aquele homem nunca havia gostado de mim e eu nunca soube o porquê.

-Heitor - Luiza disse num sussurro, mas, devido ao silêncio ainda maior que se seguiu à minha interrupção, eu pude ouvir claramente. - O que...?

Sorri abertamente para ela e caminhei pelo corredor, indo em direção à ela.

-Eu tenho algo que impede esse casamento de acontecer. - expliquei. - Acontece que a noiva não está apaixonada pelo noivo. - completei me virando para os convidados.

-Como ousa invadir...? - o pai de Luiza foi se aproximando de mim, com um olhar de quem iria me matar.

-Pai, por favor. -ela o segurou, um olhar suplicante em seu rosto. - Você sabe que ele tem razão. - ela admitiu.

Achei engraçado ver o olhar de choque estampado no rosto de todas aquelas pessoas ali. Elas, certamente, não conheciam aquela mulher tão bem assim. Era óbvio que ela não sentia nada por aquele babaca ao lado dela. Luiza desceu os degraus do altar, parou ao meu lado e mordeu o lábio inferior, tentando conter o sorriso que era impossível de esconder.

-O que deu na sua cabeça, Heitor?

Sorri e balancei a cabeça.

-Deu que eu não poderia viver se você não estivesse comigo. - sussurrei para que apenas ela escutasse. Ninguém precisava saber dos meus motivos. Eu não conhecia a maioria daquelas pessoas e nem queria conhecê-las.

O rosto de Luiza se iluminou, ao mesmo tempo que um leve rubor aparecia, e ela não conseguiu mais esconder aquele sorriso lindo que tinha.

-Você é cheio de surpresas, não? -sussurrou de volta.

Pisquei e a beijei. Sim, a beijei na frente de todos os convidados de seu casamento. Lembrando bem que eu não era o noivo. Este? Bem, este continuava lá parado, feito um dois de paus.

Terminei o beijo, mas ainda mantive nossas testas coladas.

-E então, o que está esperando? - perguntei.

Dessa vez, Luiza piscou e se virou para todos.

-Me desculpem que tenham perdido seu tempo! - declarou e sorriu. - Mas não haverá casamento nenhum.

E então, ela tirou o véu de sua cabeça e o jogou no chão, assim como fez com o buquê. Peguei sua mão e a puxei para fora daquela igreja, correndo, como se fôssemos dois adolescentes.

Abri a porta do carro para ela e então pulei para o lado do motorista.

-Não haverá casamento? - perguntei com uma sobrancelha erguida.

-Achei que minha fuga tivesse denotado bem isso. - respondeu com um tom de obviedade.

Ri de leve e balancei a cabeça.

-Não haverá hoje. - comentei enquanto partia com o carro.

-O que está querendo dizer com isso?

-Não estou querendo dizer nada. - sorri. - Por enquanto. - sorri de lado.