Eu tinha um péssimo pressentimento sobre aquela ida ao supermercado, mas o que eu podia fazer? Estava morrendo de fome e o meu Passatempo favorito tinha acabado no estoque lá de casa. Bem que a minha mãe tentou me avisar quando eu era mais novo: Tiago, você vai ficar viciado nessa bolacha.
É claro que depois ela ria, mas ela estava certa. Praga de mãe simplesmente te persegue pro resto da vida.
De todo modo, eu sabia que algo não ia dar muito certo no momento em que pus os pés no supermercado.
Como todo santo freguês, peguei uma cestinha (o carrinho era muito exagerado para comprar só um pacote de Passatempo, um Doritos e uma Coca) e saí em direção aos corredores do fundo.
Club Social, Trakinas, Oreos... Ah! Achei!
Quando eu estiquei o braço pra pegar o último pacote, alguém o pegou junto comigo.
–Acho que vi esse pacote primeiro. – eu disse tentando de toda a forma levar a bolacha pra minha casa.
–Você não tem como saber isso. – respondeu a menina que também queria o MEU Passatempo e vou te falar... Ela era muito bonita. Não devia ter mais de 1 metro e 60 centímetros, cabelos castanhos escuros como os olhos dela.
Que é isso, Tiago, minha consciência dizia, vai ficar secando a menina mesmo? Presta atenção, moleque!
Eu sei lá quanto tempo passei lá a encarando, mas só agora percebi que nós dois ainda segurávamos aquele pacote de bolacha.
–Então, dá pra ser ou tá difícil? – ela me perguntou puxando o Passatempo da minha mão.
–Opa! ‘Pera lá. – eu disse puxando o pacote de volta. – Quem te disse que você vai poder levar essa bolacha? Eu vim aqui justamente pra isso e não volto sem ela.
Ela me deu um olhar frio.
–Então acho melhor você ir procurar em outro lugar. – e puxou a bolacha com mais força e saiu andando.
Como assim? A mina pegou meu objeto de desejo e sai assim? Ah, mas ela não perde por esperar.
–Ei, garota! – eu chamei-a. – Acho que você esqueceu uma coisa.
Ela parou no meio do corredor e me olhou confusa. Eu aproveitei o momento e passei correndo por ela e consegui pegar o Passatempo de suas mãos.
Não preciso nem comentar que ela tinha um olhar mortal nessa hora, né?! É... Foi o que eu achei.
Eu passei correndo por todos os outros corredores, peguei o Doritos e a Coca e quando estava quase chegando ao caixa quem eu encontro na esquina? Pois é, a mina que queria a minha bolacha. Isso é perseguição.
Ela veio caminhando em minha direção, lentamente.
–Olha, vamos deixar as coisas claras por aqui. – ela disse se aproximando. – Essa é a única bolacha que eu como, será que você não pode, simplesmente, me dar e então eu posso voltar pra casa?
Eu podia, simplesmente, dar o pacote pra coitada, era a única bolacha que ela comia, mas quer saber?! Ela que fosse procurar outro supermercado. Eu peguei o pacote primeiro e eu que iria levá-lo pra casa.
Eu rolei os olhos e continuei indo em direção ao caixa.
–Se você quer tanto, - eu disse enquanto passava pela garota - acho melhor começar a ir procurar em outro lugar. – e então pisquei para ela e continuei andando.
Cara, eu nem acreditei! Ganhei essa. Foi fácil.
Um segundo eu estava quase entrando na fila e no outro eu estava estatelado no chão com alguém por cima de mim.
–Eu já fui muito boazinha com você. – a garota de olhos castanhos disse. – Agora me passa esse Passatempo! – e se lançou pra frente tentando tomar o pacote das minhas mãos.
O pessoal do supermercado devia achar que nós éramos loucos, pois estávamos rolando naquele chão.
–CHEGA! – eu disse me levantando do chão e entregando a bolacha à menina. – Isso não vale toda essa briga!
E saí de lá dando risada da determinação da garota de cabelos castanhos.
***
Eu estava sentado no carro esperando a minha namorada voltar, mas o que poderia demorar tanto assim? Afinal, era só um pacote de Passatempo para pagar.
–Voltei! – ela cantarolou abrindo a porta e entrando no carro. – Sentiu minha falta? – ela perguntou abrindo e fechando os olhos e dando uma risada gostosa.
–Me diz de novo porque a gente fez isso lá dentro? – eu perguntei tentando esquecer o mico que eu acabei de pagar naquele supermercado.
–Porque eu acho legal relembrar como nos conhecemos, você não?! – ela perguntou inocentemente.
Sinceramente? Às vezes eu duvido da capacidade mental da Natália, mas fazer o que? A gente realmente se conheceu brigando por um pacote de Passatempo sem recheio...
FIM