Hoje falo sobre um sentimento que não vem de hoje, mas até hoje está aqui. Passa-se numa zona que não alcanço, alcançando. Trata-se de alguém que me provoca alegria e cólera ao mesmo tempo. Alguém, à partida, inalcançável por mim, mas que de certa forma alcançei. Um registo que não é meu, e certamente não serei o seu. Mas algo se formou, unilateralmente, e não se quer desfazer.
Várias vezes fui avisada, mas como boa adolescente que sou, foi mais fácil para mim acreditar precisamente no contrário. Não acreditei, acreditanto. No fundo sempre soube, mas sempre preferi não saber. Diz-se que cada um carrega no coração aquilo que quer. Diria que se pode aplicar esta frase mas substituindo o coração pela cabeça. Eu carrego na cabeça aquilo que quero, no coração não.
Da mesma forma que não possuo coordenação motora, garanto-vos que não possuo coordenação cardiovascular. Dera a mim poder dizer o contrário sem mentir redondamente.
Várias vezes o meu encéfalo me mandou sinais, óbvios para a desistência, mas o orgão principal não quis que assim fosse. Será o coração o orgão principal? Neste registo dizem que sim, mas num sentido figurativo. Eu, que sempre preferi que me dissessem que no final do filme a personagem principal vai morrer, vivo sem saber qual será o final, ou até mesmo o início do meu próprio filme.
Se eu sou a personagem principal, quem serão as personagens secundárias? Ou quem protagonizará o meu filme comigo? Não passarás tu de um mero figurante? E se assim for? E se fores um mero figurante que eu exijo que contracene comigo? Duvido que assim o queiras. Aliás, tenho a certeza que não o queres.
Tenho pena que assim seja, mas não te amo. O que mais me irrita em ti é que não te amo. Não te amo mas não consigo deixar de pensar em ti ou de reparar se me falas ou não. Não percebo a tua influência em mim, se não te amo. Acabaste por ser uma meta que eu queria atingir para mostrar o troféu, mas a verdade é que não te vejo como um ser superior. Então porque serás tu a minha meta? Porque quereria eu exibir-te? Razões que a própria razão desconhece.
Seria por uma questão de teimosia? Por sempre ter ouvido que não iria dar em nada porque não és uma pessoa que tenha essas proximidades? Ou seria por os outros te acharem um ser superior e eu achar que só ao alcançar-te teria também essa notoriedade? Duvido. Não sou desse tipo de pessoas, não conscientemente.