Não me apetecia fazer nada, respirar era a única coisa que o meu corpo não se relutava por fazer, e por isso dediquei-me ao leve vento que ouvia na rua. Por acaso, encontrei uma teia de aranha mal feita, daquelas que não são muito elaboradas mas que se sabe que algures por ali há um bicho à espera da refeição. Admito que coloquei por ali uma formiga viva. Queria ver algo mais emocionante que eu, precisava de aprender algo que eu quisesse, e não aquelas matérias que são despejadas em livros de 230 páginas. Fiquei à espera da aranha, reconhecendo o meu pecado de deixar um bicho inofensivo, que nem pediu para existir e muito menos por descuido lá foi parar, com a sentença de morte escolhida para daqui a poucos minutos. Mais uma vez o lado animal do Homem, neste caso o meu, que por pura ciência sujeita qualquer coisa a qualquer tipo de maldade. Observei, um tanto admirada e entusiasmada, o avanço da aranha em direção ao bicho. Nem sequer pensei no sofrimento da formiga, limitei-me a esperar que a aranha fizesse o seu trabalho. Vi a teia a mexer-se e a própria aranha em trabalhos e só então me apercebi do que se tratava. Desde o momento em que eu, propositadamente, a tinha feito cair em cima da teia até agora, a formiga encontrava-se em luta pela sua vida enquanto a aranha tecia a sua teia de modo a prender-lhe as patas e inclusive, pelo que me pareceu, esta última tinha arrancado uma pata à minha cobaia.
Com a revolta, de certo compreensível, a formiga deu uma patada na aranha, que logo recuou. Pensei que alguma acabaria por desistir, e ali senti a aranha derrotada. Talvez fosse o que eu realmente quisesse, não só pelo arrependimento que senti depois de ter forçado a formiga a tal esforço sobrenatural, pelo menos para a dimensão que essa mesma possuía, quer pela vontade de ver os grandes cair. Não que eu seja inferior ou superior a ninguém, ou que odeie toda a gente que se dá bem nesta tal de vida, mas é um facto que gosto de ver o avantajado perder uma guerra. E nesse momento enchi-me de esperança, mas rapidamente a aranha recuperou e terminou o que tinha a fazer. Senti-me um tanto chateada pela rápida queda da formiga.
No entanto, orgulhei-me daquela formiga, que se não fosse aquela seria outra azarada qualquer que estaria ali por perto daquela zona de perigo acima do seu formigueiro. Orgulhei-me pela sua não desistência, pelo facto de ela saber, sem saber, que iria perder aquela batalha, orgulhei-me pela sua força de vontade, orgulhei-me ao perceber que ela nem sequer pensou que não conseguiria. Morreu com força, depois do esforço, e nunca sem esperança.
Um bicho estúpido que não pensa nem lida com emoções, nem sequer tem família, nem preocupações, não dá nem recebe amor, estava ali a lutar pela única coisa que lhe pertencia, que era a própria vida.
Lidar com a mente
Há algo de estranho na minha mente.
Quando eu mais quero e preciso dela, ela abandona-me e deixa-me com más companhias.